Cultura. Uma palavra tão utilizado no cotidiano das pessoas e, ao mesmo tempo, tão mal resolvido para a maioria delas. De acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli, doutor em história social e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), acadêmicos divergem entre si quanto à definição do termo. Há diferentes linhas. Os não-acadêmicos, por sua vez, têm visões sobre o significado da palavra que não se enquadram em nenhuma delas.
Cientificamente, a definição mais aceita de cultura, segundo Bertolli, é a ao autor Clifford Geertz, que utiliza a expressão “campos simbólicos”. “Nós temos maneiras próprias de hierarquizar o mundo – isso é bom, isso é mau, isso é possível, isso não é. (...) A cultura seria, então, um conjunto de idéias e tramas que eu elaboro da melhor maneira possível para viver a minha existência”, explica o professor.
Já os não-acadêmicos relacionam muito o termo cultura à tradição. “Não se pensa que cultura brasileira é, por exemplo, um museu de arte moderna ou uma excursão da periferia para o Litoral – os farofeiros”, destaca o antropólogo.
Ele acrescenta, ainda, que muitas vezes a palavra é empregada como sinônimo de conhecimento. Confira, a seguir, trechos da entrevista concedida ao JC Cultura.
JC Cultura – Qual é a definição de cultura que a academia adota?
Cláudio Bertolli – Academicamente, cultura é um conceito forjado e elaborado pela antropologia. E se constitui tanto no ponto de apoio da própria antropologia quanto na sua fragilidade. A antropologia tem quase 150 anos de saber científico e se fala que existe praticamente o mesmo número de conceitos sobre cultura. Torna-se uma fragilidade porque, se o nosso objeto é a cultura, o que é a cultura? Isso é uma definição muito complicada, polifônica. Tradicionalmente, a antropologia definiu a cultura como “um todo complexo”. Esse conceito acabou sendo utilizado durante décadas, mas se esgotou porque, ao definir tudo, não definia nada.
JC – E existem divergências entre os teóricos?
Bertolli – Vamos ver vários outros tipos de definições como hábitos e costumes de um povo. Esse tipo de conceito, que é muito comum em livros de primeiro e segundo graus, levou a uma crise muito grande porque, ao estabelecer que cultura era hábitos e costumes, se impunha uma camisa-de-força no indivíduo. Ele não poderia fugir aos costumes de seu grupo, aos hábitos e às idéias porque ele seria excluído e marginalizado. Não é à toa que, a partir dos anos 70, o Geertz (Clifford Geertz) ganha muita ênfase nesta área. Ele nasceu em 1926, mas ele participou da contracultura dos anos 60. Então, ele vai dizer que não podemos pensar que a cultura é uma camisa-de-força. Pelo contrário. Ela é um cenário no qual cada um de nós, por conta própria, articula de maneira diferente. Ele vai dizer que a cultura nada mais é do que campos simbólicos. Nós tempos maneiras próprias de hierarquizar o mundo – isso é bom, isso é mau, isso é possível, isso não é. Claro que existem os grandes modelos, mas cada um de nós articula esses campos de uma maneira própria, dando significado próprio a cada uma das situações e dos eventos culturais. Isso daria mais liberdade para o homem porque ele se apropriaria desses campos para viver sua vida. Ele junta esses elementos para atuar no cotidiano. A cultura, então, seria esse campo teórico. A cultura seria, então, um conjunto de idéias e tramas que eu elaboro da melhor maneira possível para viver a minha existência. Isso faz com que, diferentemente de outros intelectuais, ele evite falar em linhas gerais da cultura. Se cada um articula de uma maneira própria, como eu vou criar um parâmetro comum? Então, não existe objetividade. Daí, nós falamos de representações sociais. Eu dou aula para o curso de biologia e eu sempre falo que quando você olha no microscópio, você vê uma coisa que é uma representação do seu olhar. Seu olhar foi treinado para ver aquilo. Você tem que acreditar que naquela pequena quantidade que você está analisando contém alguma parte do rabo do rato, por exemplo.
JC – Essa linha é a mais aceita, atualmente?
Bertolli – Ela é a mais aceita. Não quer dizer que não existam outras. Existe ainda a antropologia estrutural, do Claude Lévis-Strauss, que fala na cultura como uma série de dispositivos para que eu crie normas para minhas necessidades básicas. Por exemplo, a cultura diz com quem eu posso me relacionar, a que horas e como. Alimentação, sono e muitas outras coisas se dão através desta perspectiva. Existe também a antropologia marxista, que coloca basicamente que a cultura na mais é do que instrumentos do homem para se adaptar ao meio ambiente. E assim por diante. Mas a dominante, hoje, é a do Geertz, chamada antropologia fenomenológica ou compreensiva, que nega a objetividade como parâmetro básico.
JC – Essa é a visão acadêmica. E o que é cultura para a população em geral?
Bertolli – Vários alunos já fizeram trabalhos perguntando isso aos mais diferentes tipos sociais. E a gente repara que tem uma diferença muito grande. Ou seja, essa discussão que se faz no plano acadêmico não tem nada a ver com o que as pessoas pensam. Primeiramente, os não-acadêmicos tendem a não pensar a cultura. Ou seja, Quando são entrevistados sobre cultura, a maior parte não sabe o que responder. Quando respondem, respondem frente à influência midiática. Ou seja, cultura como tradição. Então, a cultura é pensada como um conjunto de elementos da tradição – Carnaval, Folia de Reis e mil outras situações. Não é pensada como um elemento amplo, geral. Não se pensa que cultura brasileira é, por exemplo, um museu de arte moderna ou uma excursão da periferia para o Litoral – os farofeiros. Isso são elementos e estratégias culturais. A grande ênfase que a mídia dá ao conceito de cultura passa exatamente por este caminho da tradição e de não se pensar o presente, o momento atual, cada um de nós como expressão cultural.
JC – O que você pensa sobre a expressão: “fulano não tem cultura”?
Bertolli – Eu tenho aluno que fala “aquele indivíduo não tem cultura”. Eu falo: “impossível pensar isso”. Cultura é pensada como conhecimento. Ou seja, “o indivíduo é culto”; ou aquele outro “não tem cultura”. É pensada como a carga de conhecimento. E um conhecimento mais eficiente, mais operacional. Pensa-se cultura como um conjunto de regras para observar e entender o mundo. Ao se pensar que quanto mais se sabe, mais culto é, você chega a uma perspectiva das próprias relações de poder na sociedade. “Culto é o doutor. Então eu tenho que me submeter freqüentemente a ele porque ele sabe mais do que eu. Se eu sei mais do que você, eu tenho uma certa autoridade para decidir o que é melhor para você.” Isso é muito colocado: cultura como sinônimo de conhecimento.
JC – A visão de cultura como modo de vida foi abandonada?
Bertolli – Essa visão está muito difundida num público de classe média, que obteve ensino mais aprimorado, mas que ainda não tinha essa discussão no plano acadêmico.
JC– É comum também que as pessoas associem cultura a entretenimento?
Bertolli – Ao espetáculo. Se eu vou assistir a um show de alguém famoso ou estrangeiro, se pensa como sendo cultura. Quanto mais sofisticada a expressão de entretenimento, mais é pensada como algo relacionado à cultura.