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Progresso severino


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Em frente aos hotéis de luxo da praia de Porto de Galinhas há um vendedor de sorvete que, ano passado, completou 59 anos de idade. Se estivéssemos no tempo da escravidão, ele seria libertado este ano, pela Lei dos Sexagenários de 1885. Em pleno século XXI, esse homem continua escravo, empurrando todos os dias um pesado carrinho de sorvetes, por cerca de 20 km, sobre a fofa areia da praia, para servir os turistas.

Ele faz esse trabalho desde 1970, em lugares diferentes. Trabalhou em quatro fábricas de sorvete muito conhecidas dos recifenses do passado: Daqui, Xaxá, Maguary e Kibon, onde está até hoje.

Ele não reclama do sol forte, nem da areia fofa. Queixa-se da redução no número de clientes, por causa do desenvolvimento turístico da região nos últimos anos. Antes de chegarem os grandes hotéis, ele saia cedo com o carrinho cheio, vendia tudo, voltava no meio da tarde com carro vazio. Agora, sai com metade da carga e, no meio da tarde, vendeu apenas metade.

Para o consumidor, parece um contra-senso que o desenvolvimento da região tenha piorado o negócio dele. Mas ele explica: os hotéis trouxeram turistas de fora e instalaram seus postos de venda de sorvetes. Os antigos freqüentadores locais se afastaram daquela praia, inibidos espontaneamente, impedidos pela localização dos hotéis ou pressionados por seus seguranças. E os turistas preferem o sorvete vendido no hotel, pago com a simples assinatura da conta. O negócio do vendedor avulso, que empurra o carrinho pela areia da praia, piorou.

Em compensação, os hotéis criaram um número muito maior de empregos, com salários fixos, com trabalho mais leve. No lugar de alguns vendedores de sorvetes e cervejas na praia, agora há milhares de trabalhadores cuidando de milhares de habitações da rede hoteleira. Outros tantos foram empregados na produção de artesanato, restaurantes, transporte. No cômputo geral, não há dúvida da vantagem do progresso turístico para a geração de empregos, diferentemente do que ocorre com o progresso atual da indústria. Os problemas podem estar no equilíbrio ecológico, no risco de prostituição, na desestruturação das famílias, mas não no nível de emprego. O vendedor de sorvetes é apenas um trabalhador obsoleto, em fase terminal.

Ainda assim, não se pode deixar de lamentar que o progresso tenha deslocado seus sorveteiros. Do ponto de vista ético, o progresso deve considerar pessoas como esse vendedor, próximo da idade anciã, cujo trabalho exige uma energia que já não tem, e cujo retorno financeiro é inferior à sua situação anterior ao progresso.

O progresso tem suas vítimas. As populações expulsas para que a construção dos novos hotéis, os agricultores expulsos para a instalação das hidrelétricas, os pequenos comerciantes destruídos pelos grandes shoppings centers. Ninguém pensa em frear o progresso que seduz o usuário, e que também gera emprego e renda. Mas o Brasil precisa de uma Lei dos Sexagenários para proteger os deslocados pelo progresso, como esse vendedor em Porto de Galinhas. Seu nome é Joaquim, mas Severino simboliza mais sua realidade.

Lembra o poema de João Cabral de Melo Neto, completado pela genialidade musical do Chico Buarque. Nele, um homem deixa sua terra em busca da sobrevivência na capital, e só consegue uma área de terra suficiente para sua cova. As mudanças das últimas décadas criaram outros deslocados, por novas causas, mas iguais ao de “Morte e Vida Severina”. Isso pode ser evitado. Em primeiro lugar, com um sistema educacional que permita que os novos empregos gerados sejam ocupados por seus filhos, o que hoje não acontece; em segundo lugar, com um sistema de apoio que lhes dê acesso a um pedaço do moderno latifúndio chamado progresso.

O autor, Cristovam Buarque, é professor da Universidade de Brasília e senador do Distrito Federal pelo PT

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