Cultura

'Instrumental light'

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 5 min

“Instrumental light”. É desta forma que o músico paulista Natan Marques define o show que fará hoje, no Sesc Bauru, às 21h30.

Ele argumenta que apelidou sua música desta forma porque não é instrumental para “platéia de músicos”, cheia de improvisos e frases de difícil compreensão para o público leigo. Pelo contrário.

Com 40 anos de carreira, Natan, se divide entre um músico que acompanha cantores e outro que toca música instrumental. E destaca que atualmente é difícil viver de música instrumental no País. “Eu gosto de instrumental e adoro acompanhar. Então eu me divido um pouco entre as duas coisas. A gente faz o que dá para fazer”, diz.

O paulista toca violão, guitarra e viola, mas se autodenomina um “tocador”. “Eu sempre falo que sou tocador, não sou violonista. Eu aprendi tudo em baile. Depois, eu aprendi na teoria. Eu tocava ouvindo discos, tirando de ouvido. Na realidade, eu toco violão, guitarra, viola. Eu gosto de instrumentos de cordas. Toco um pouquinho de cada um”, acrescenta.

Na bagagem, ele tem muitas histórias e lembranças. Em entrevista concedida ao JC Cultura por telefone, contou que dirigiu o último show de Elis Regina, “O Trem Azul”, e que esse foi um dos melhores momentos de sua carreira. Mas Natan tocou também com grandes nomes da música brasileira como Djavan, Ivan Lins, Renato Teixeira e Simone, entre outros.

Hoje, acompanhado dos músicos Manguinho (bateria), Cláudio Rocha (baixo) e Beto Correia (piano), ele tocará músicas do CD “Fotografias”, que está em fase de mixagem. São composições próprias de várias épocas de sua carreira. O álbum é o terceiro em que ele reúne músicas de sua autoria. Os dois primeiros, instrumentais, foram gravados na década de 80 – “Comboio” e “2”.

“Depois parei um tempo. Fiquei meio decepcionado com a coisa de instrumental. Porque a gente gasta mais do que ganha para fazer instrumental. Não tem patrocínio. É uma dificuldade”, explica.

Confira, a seguir, trechos da entrevista concedida ao JC Cultura.

JC Cultura - O que podemos esperar do show de hoje?

Natan Marques - É um show instrumental. Estou terminando de mixar um CD com as músicas deste show. Vai se chamar “Fotografias”. São muitas coisas que compus durante um tempo. Como já tenho 40 anos de carreira, são coisas que eu faço durante muito tempo. Não é o primeiro CD que estou lançando, mas este é um CD com músicas de várias épocas, tem coisas bem antigas e coisas mais novas, bem atuais. Eu costumo chamar de um “instrumental light”. Eu sou mais preocupado com melodia e harmonia. Não é um CD jazzístico de improviso, para platéia de músicos. É uma coisa mais light, mas bem legal.

JC – Dos seus 40 anos de carreira, o que você destacaria?

Natan - Os melhores oito anos de minha vida foram os oito anos em que toquei com Elis, que foi de 1974 a início de 1982, quando ela morreu. Esse, para mim, foi realmente o melhor momento. A música era boa na época. E eu peguei a melhor fase de Elis, aquele show “Saudade do Brasil”. E fiz a direção do último show dela, “O Trem Azul”. Foi quando ela se separou em definitivo do César (Camargo Mariano) e acabou sobrando para mim. Acabou sendo ótimo para mim também. Mas, antes, em 1979, eu também toquei com o Ivan Lins e com o Djavan - ele estava começando a aparecer, tinha dois LPs gravados. Era praticamente o começo da vida dele de músico. Depois que a Elis morreu, trabalhei oito anos com a Simone.

JC – Como músico, você gosta mais de acompanhar cantores ou de fazer música instrumental?

Natan – A gente faz um pouco de instrumental quando deixam. É muito difícil tocar instrumental. A gente toca mais por prazer, não dá para viver muito disso. Não existe público, não tem mídia boa para instrumental. A mídia hoje sempre trabalhou muito encima de voz. Mas eu gosto das duas coisas. Eu gosto de música boa, bem cantada. É claro que, depois de trabalhar com a Elis, fica difícil (risos). Mas eu também faço um trabalho paralelo com minha esposa, a Myrthes Aguiar. Estamos gravando um CD com composições minhas que vai se chamar “Letra e Música”. São coisas minhas que muita gente não conhece. É esse lado meu de composição com parceiros, com letristas. São composições que eu tenho com vários parceiros e parceiras. Tem coisas minhas que a Elis gravou, como “Sai Dessa”. Tem outra que se chama “Dama do Apocalipse”. A Maria Rita gravou “Vero”, que também é minha. Eu tenho coisas por aí. Eu gosto de instrumental e adoro acompanhar. Então eu me divido um pouco entre as duas coisas. A gente faz o que dá para fazer.

JC – O que você destaca na música instrumental brasileira?

Natan – Eu gosto muito do Hermeto Pascoal. A mídia acabou dando oportunidade para ele. Eu tenho um filho que toca com o Hermeto, o André (Marques). Eu gostaria de ser igual a ele. Porque eu acho que o meu filho completou aquela coisa do músico que eu sempre quis ser. Eu sempre falei para ele fazer só o que ele gosta. Em último caso fazer outras coisas. Ele conseguiu esse caminho. Ele dá aula no Conservatório de Tatuí, mora em Sorocaba e está sempre fazendo show com o Hermeto e o Trio Curupira. É um cara excepcional.

JC - O que você ouve hoje?

Natan - Eu ouço mais música brasileira. Eu adoro MPB bem feita. Eu gosto, por exemplo, da Nana cantando. De instrumental, gosto de Yamandú (Costa, violonista). Ele é único, um cara ímpar. Ele tem um domínio que eu gostaria de ter sobre o instrumento. Essa safra de músicos, de gente jovem com essa informação, está tocando muito.

JC – Depois de 40 anos de carreira, você ainda tem sonhos não realizados?

Natan - A gente sempre sonha. O sonho é uma coisa que motiva, que faz a gente viver. Esse CD com letras minhas é uma coisa que há muito tempo eu tenho vontade de fazer, por exemplo. Então, estou realizando mais um sonho.

• Serviço

Natan Marques se apresenta hoje, no Sesc Bauru, às 21h30. Outras informações podem ser obtidas através do telefone (14) 3235-1750.

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