Não há dúvidas de que a indústria automobilística nacional vive um bom momento. Prova disso foram os números divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que apontou a produção, em 2004, de 2,2 milhões de veículos no País, a melhor marca desde 1997. Além disso, quando comparadas com 2003, as exportações aumentaram mais de 50% e as vendas internas mais de 10%.
No entanto, fatores externos podem ameaçar a animadora tendência de crescimento para o setor. É o que pensa Paulo Mendonça, diretor comercial da BV Financeira (empresa de crédito do Grupo Votorantim) que esteve em Bauru, semana passada, para proferir uma palestra sobre a temática “As Boas Perspectivas para a Indústria Automobilística” para empresários e lojistas do setor automotivo de Bauru e região.
Mendonça avalia que o terrorismo, a instabilidade do preço do petróleo, o desaqueci-mento da produção chinesa e a elevação dos juros nos Estados Unidos integram uma conjuntura externa que pode incomodar o crescimento do País e da indústria automobilística. “São gargalos que podem influenciar negativamente, como a alta dos juros americanos, que afetam toda a economia mundial”, considera.
Apesar do panorama externo desfavorável, Mendonça crê em um 2005 melhor para o segmento. Para sustentar seu raciocínio, ele cita como fatores incentivadores a recuperação do poder aquisitivo e da confiança no emprego dos trabalhadores, além do processo contínuo de contratações das montadoras.
“No ano passado, batemos recordes na produção de veículos e as fábricas contrataram mais de 10 mil empregados. Isso ocorreu devido à recomposição de renda da classe trabalhadora. Até 2003, tínhamos perdido quase 30% do poder aquisitivo, mas 2004 foi o primeiro ano positivo de reposição de renda real, com um índice médio de 5%. E para 2005 as perspectivas são de um ganho 8% a 9% nos salários”, enfatiza Mendonça.
Segundo o diretor comercial, a queda na taxa de juros, os aumentos de prazos para financiamentos e a elevação da confiança no governo Lula também contribuíram para o bom desempenho do setor automotivo em 2004. “O principal fator é que o grau de confiança atual é mais elevado do que no início do governo Lula, onde não houveram investimentos, o empresa-riado não contratava e todo mundo tinha medo de perder o emprego. Hoje a situação é outra, pois há setores contratando”, pondera.
Entretanto, apesar da conjuntura interna favorável, Mendonça reconhece que este ainda não é o cenário dos sonhos para o setor. “Ainda temos 35% de capacidade ociosa nas indústrias e, devido à má distribuição de renda, não se consegue mudar isso a curto prazo”, salienta.
Para ele, somente as exportações teriam essa capacidade. “Mas para isso precisaríamos dobrar as unidades comer-cializadas com o exterior, atualmente no patamar de 600 mil veículos, e manter a produção de 2,2 milhões de veículos. Assim, teríamos plena carga nas indústrias, pois atingiríamos 1,2 milhão de unidades exportadas, valor que cobriria a atual capacidade ociosa das montadoras”, argumenta Mendonça.
Já a queda da carga tributária, uma das medidas mais reclamadas por executivos das montadoras nacionais, é vista com ressalvas pelo diretor. “Isso porque todas as vezes que se reduzem os impostos nesse País não se repassam os valores correspondentes aos consumidores”, conclui Mendonça.