Roupas, despesas com transporte, cursos de qualificação, serviços de informação. Você já colocou na ponta do lápis o quanto gasta para simplesmente manter-se no mercado de trabalho? Pois é, os custos podem ser altos. Tão altos que, segundo o economista Fernando Pinho, muita gente anda “pagando para trabalhar”.
A assessora de marketing Michelle Godoy Ceschin não chegou a tanto. Mas admite que atualmente compromete pelo menos 50% do seu salário para se manter no trabalho. Somente com roupas e cuidados com a imagem lá se vão todos os meses cerca de R$ 300,00. O investimento no visual é tão grande que a assessora já coleciona 100 pares de sapatos.
Depois vem as despesas com transporte, que chegam a R$ 200,00 somente de combustível. “Tenho um custo com meu carro, com combustível, tenho custo de cabeleireiro e de roupas mensalmente”, destaca. “Em relação à imagem, eu tenho que estar impecável no trabalho”, afirma.
E a conta não pára por aí. Visando a reciclagem profissional, Michelle afirma que gasta cerca de R$ 200,00 em revistas especializadas, jornais e livros mensalmente. Isso sem contar a média de três cursos de qualificação profissional que participa todos os anos. “Eu acho que vale a pena. Não tem outra forma, ou você está fora do mercado. Você tem que acreditar que um dia isso vai dar retorno”, afirma.
A pedido do JC, o economista Fernando Pinho fez uma simulação de algumas despesas que o profissional tem para trabalhar, como os gastos com roupas, equipamentos, serviços de informação e transporte. O resultado não é animador. Segundo o economista, muitos profissionais de perfil médio comprometem no mínimo de 15% a 20% de sua renda apenas para manter-se no emprego.
Para Pinho, o custo do trabalho é muito mais alto do que se imagina. Isso porque muitas despesas sequer são computadas pelos profissionais, já que são parceladas ao longo do tempo.
Um trabalhador que utiliza o veículo próprio para trabalhar, por exemplo, além da conta do combustível, deve considerar também as despesas com a depreciação do automóvel, imposto, seguro e licenciamento do veículo. “Você tem que dividir esse valor total por doze vezes no ano”, explica.
Para alguns profissionais, outros itens poderiam ser incluídos ainda nos custos do trabalho, como a contribuição sindical, os descontos decorrentes do FGTS e INSS. “Tudo isso vai ajudando a consumir o orçamento de maneira bastante séria”, diz.
Pinho afirma que em alguns países da Europa e nos Estados Unidos o profissional pode deduzir parte dos custos relativos ao trabalho do Imposto de Renda (IR).
Reciclagem
O economista ressalta que o mercado tem exigido um movimento de reciclagem ininterrupta dos trabalhadores.
Nesse sentido, para manter-se atualizado, muitas pessoas arcam atualmente com os custos de livros, assinatura de jornais, revistas especializadas, acesso a Internet, etc.
“É um custo para manter-se na atividade bastante alto. Se você não tiver informação, como é que vai trabalhar?”, questiona. “Por isso, tem muitas pessoas que estão bancando essa conta”, completa o economista.
Algumas empresas de grande porte tem exigido inclusive o crescimento contínuo do currículo profissional. “A cada dois, três anos, a pessoa tem que estar engordando o currículo”, diz Pinho. Na opinião de Gabriela Afonso Casério, gerente de uma empresa de recursos humanos de Bauru, o mercado tem sido implacável com os profissionais.
“O mercado é cruel. Não perdoa não. Se você ficar três ou quatro anos sem estudar ou fazer curso, tenha certeza de que você vai ser cobrado disso lá na frente”, afirma. “Diluindo durante o ano, um profissional deve investir pelo menos 5% (de seu salário) todo mês para a qualificação”, calcula.
Visual impecável
A boa apresentação do profissional é um elemento importante para a manutenção no mercado de trabalho. É o que afirma a gerente de uma empresa de recursos humanos de Bauru Gabriela Afonso Casério. A regra vale especialmente para trabalhadores que lidam diretamente com o público, profissionais liberais ou aqueles que ocupam cargo executivo ou de gerência.
“Eu acho que pelo menos 10% do salário (desses profissionais) vai para a manutenção do visual”, diz a consultora, afirmando que a maior parte desses gastos não são compensados pelas empresas.
A preocupação com a aparência é tanta que já existem até cursos técnicos voltados para a melhoria da imagem pessoal. Um exemplo disso é o curso de visagismo, oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “A preocupação com o aspecto, ligada à atitude, é cada vez maior”, afirma o coordenador Hélio Sassaki. Segundo ele, o curso tem atraído cada vez mais profissionais de todas as áreas.
Na opinião de Sassaki, atualmente, essa cobrança do mercado com a boa apresentação do profissional é notada tanto nas grandes capitais, quanto em cidades menores, como Bauru. “Às vezes, numa cidade menor a preocupação com a aparência é até maior”, conclui.