Um projeto batizado de “Caminho de Volta” -, que busca crianças desaparecidas no Estado de São Paulo, do departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), vai instalar uma unidade de coleta de DNA em Bauru, ainda este ano. A instalação pode ser a primeira do Interior e inicia um processo de expansão que deve atingir todo o País .
O projeto, que teve início em setembro do ano passado pretende em São Paulo, ajudar a encontrar crianças desaparecidas no Estado, otimizando o atual sistema de busca, registro de dados, troca de informações e apoio às famílias dos desaparecidos. Graças à repercussão e credibilidade, o “Caminho de Volta” firmou convênio com o governo federal.
A verba federal será usada para capacitar profissionais em cidades chaves, explica a geneticista chefe do departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da USP, Gilka Fígaro Gattás. “Precisamos capacitar profissionais para o atendimento, antes de instalar as unidades. O caso de Bauru está bastante adiantado e poderá ser o primeiro do Interior, mas haverá em todo o Brasil.”
A busca pelas crianças desaparecidas alia biologia molecular, psicologia, informática e telemedicina, segundo a geneticista. “Os métodos utilizados irão fornecer bases para a realização de pesquisas e elaboração de políticas públicas de prevenção aos desaparecimentos.”
De acordo com ela, a unidade de Bauru poderá ser instalada em julho deste ano. “O curso de capacitação envolve vários profissionais, porque não é só a coleta de material biológico. O banco de DNA age sobre quatro eixos.”
São eles: o banco de DNA; a identificação das causas do desaparecimento; suporte psicossocial às famílias dos desaparecidos e às crianças encontradas sem identificação, e capacitação de centros regionais.
De acordo com ela, há envolvimento de psicólogos que acompanham as famílias dos desaparecidos e as crianças encontradas sem identificação. “São várias frentes. No Brasil, por exemplo, não há dados estatísticos dos motivos que levam ao desaparecimento de crianças. O atendimento pode investigar porque muitas desaparecem de casa, voltam e desaparecem novamente.”
O projeto pretende ampliar os convênios pelo país todo. “Vamos fazer convênios com outras universidades e Organizações Não-Governamentais (Ongs) no Brasil todo para formar uma rede de atendimento.”
O “Caminho de Volta”, frisa a geneticista, já tem 70 famílias de desaparecidos cadastradas. “Para ser apto a fazer parte do projeto, tem que ter o registro (BO) do desaparecimento. O desaparecido tem que ser menor de 18 anos, na data do desaparecimento.”
Ela acredita que há uma demanda reprimida. “Mesmo que faça 20 anos que a criança desapareceu, a família pode se cadastrar no projeto, desde que queira e tenha o registro formalizado.”
Banco de DNA
O banco ficará centralizado em São Paulo. Nas unidades serão coletadas amostras biológicas, que ficarão armazenadas, guardando o perfil dos pais. “Se aparecer uma criança com as características semelhantes às dos pais, faz-se a coleta de sangue e a comparação. O resultado é 99,99% confiável”, explica Gilka.
Outro trabalho do banco é armazenar amostras biológicas de crianças sem identificação, vivas ou mortas. “Se uma criança encontrada morta não tiver identificação, a polícia poderá requisitar a comparação. No caso das vivas, o mesmo pode ser requisitado, só que, desta vez, pelo juiz competente. Através da comparação poderão ser identificados os pais.”
Só em São Paulo, de acordo com a chefe do departamento de Medicina Legal, 40% das crianças abrigadas não têm filiação definida. “É outro convênio que vamos fazer, porque essas crianças estão sob a responsabilidade do juiz da Infância e Juventude e não da polícia.”
A Delegacia de Pessoas Desaparecidas do Estado de São Paulo, ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), registra o desaparecimento de cerca de 8 mil crianças por ano.