No Poder Legislativo da Capital Federal, não bastava os deputados receberem 15 salários anuais, muito embora oficialmente “trabalhem” por apenas 9; não bastava a tradicional falta de quórum a comprovar a decadência moral para a atividade parlamentar; não bastava terem R$ 6 mil de auxílio-moradia, R$ 3 mil de auxílio-paletó, R$ 4 mil de despesas postais e outros tantos milhares de reais para cafezinho, combustível, etc; não bastavam as inúmeras passagens aéreas mensais; não bastavam “apenas” R$ 25 mil de verba de gabinete, eles tinham que aumentar em mais R$ 10 mil o desvio dinheiro público para gastar em seus gabinetes. Tinham também, face às suas “extenuantes” atividades, que aumentar em mais 5 a quantidade de assessores parlamentares (pasmem, 2.530 assessores a mais no Congresso!).
Na outra ponta da corrente, no Poder Executivo, não bastavam os escândalos bimestrais que, desde jan/03, vêm ocorrendo num governo que se dizia “o salvador da Pátria”; não bastava a criação de mais 3.600 cargos de confiança, que se somaram aos já absurdos 21.000 existentes; não bastava a promiscuidade federal no troca-troca de favores e cargos entre os partidos da chamada “base aliada”. Ainda era preciso aumentar a farra federal ao se levar patotinha do filho do presidente para passear em barco da Marinha e avião da Força Aérea.
Se não bastasse tudo isso, ainda preciso ver a desgraça que é o Sistema de Saúde, vendo meus conterrâneos morrendo sem tratamento adequado; preciso ver o desespero dos pensionistas e dependentes da previdência, que madrugam nas filas para mendigar o retorno daquilo que lhes foi subtraído durante toda a vida; preciso ver pais dormirem dias, sob chuva e sol, tentando colocar seus filhos nas escolas depauperadas de um falido sistema de Ensino; preciso ver meu carro numa ser lentamente destruído numa indecorosa malha rodoviária, que mais se parece um campo de batalha; preciso torcer para não ser vítima de algum menor ou maior criminoso, pois o Estado não tem como me garantir a segurança pública.
Mesmo diante desse caos chamado Brasil, quando o presidente da Câmara e o presidente do Brasil responderam, enfaticamente, “não tenho nada a comentar” (sobre os fatos acima narrados), fico me perguntando como eles, membros do Poder Executivo e Legislativo, encontram tanta disposição para jamais interromper o ciclo de declínio moral das atividades políticas nacionais. A resposta é simples: eles são brasileiros e não desistem nunca! Por falar nisso, alguém viu um pouco de auto-estima por aí?
Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173