Em matéria de gestão político-administrativa, as maldades devem ser praticadas de uma só vez. Logo no início. As bondades precisam ser administradas em gotas homeopáticas, lentamente e distribuídas ao longo do tempo. Esse conselho que Maquiavel dava ao Príncipe em seu manual de bons procedimentos até hoje é seguido no mundo neoliberal. Talvez seja essa a explicação para as atitudes tomadas pelo governo Tuga Angerami logo neste início da Fase II.
O presidente da Emdurb, Renato Purini, anunciou a demissão de 130 lixeiros e a privatização do serviço mediante contrato emergencial, com dispensa de licitação. Depois veio a notícia da incorporação do prédio do tradicionalíssimo Instituto de Educação “Ernesto Monte” à sede da Prefeitura, com a finalidade de se economizar 50 mil reais gastos em aluguéis para abrigar as repartições espalhadas pela cidade. Idéia genial do vereador oposicionista Parreira de Miranda. Agora, vem a notícia do déficit entre o arrecadado com a Contribuição de Custeio da Iluminação Pública e o que deve ser pago à CPFL. Insinua o secretário das Finanças que os valores acrescentados à conta de luz são muito baixos – “um máximo de R$ 5 por domicílio - embora eu tenha pago R$ 8,22.
O que mais pode sair do saco de maldades do prefeito ainda não se sabe. Se a Emdurb, que antigamente também cuidava das estradas municipais deixar de coletar o lixo, desaparece mais um dos objetivos para o qual foi criada. Vai sobrar a administração dos banheiros da Rodoviária e o julgamento dos recursos às multas de trânsito, principal fonte de renda da empresa de desenvolvimento urbano. No final do ano passado também foi extinta a Câmara de Compensação dos ônibus urbanos, negócio de R$ 9,5 milhão trocados pela continuidade da concessão dos transportes. A transação ainda precisa ser melhor explicada. Nunca se viu prorrogar contratos públicos por prazos maiores que os originalmente previstos na licitação.
O discurso da campanha recém-terminada pregava ouvir a comunidade. Sequer a bancada de sustentação política do prefeito foi ouvida sobre o já propalado “projeto lixo”, de tantas repercussões. “Queremos embaixo deste enorme guarda-chuva todos aqueles que amam esta cidade e querem ver Bauru mais bela, justa e democrática” – foi o refrão do discurso de posse. A chuva não pára de cair e o povo está ao relento.
A incoerência desse discurso quando confrontado com a ação leva o povo a cismar. Tenho ouvido explicações até curiosas. “Olhar de vice é um perigo. Derruba até avião!” – disse o prefeito para justificar a escolha de Purini para a presidência da Emdurb. A intenção em dar corda no vice, autor dessa história de privatizar o lixo, seria a estratégia encontrada por Tuga para se livrar do olhar-seca-pimenteira? O Parreirinha seria um dos principais opositores ao novo governo, desmanchado o trio de ferro complementado por Clemente, no DAE, e Toninho Garmes, na presidência da Câmara e, portanto, longe da tribuna e obrigado a uma postura mais sóbria. Pelo Instituto passaram os membros das elites que hoje mandam na cidade. Inclusive o próprio Tuga. A diferença do IEEM com o “Caetano de Campos”, em São Paulo, é que nenhuma estação do metrô está sendo construída nos seus subterrâneos.
Disraeli, o mais celebrado estadista britânico – talvez mais do que Churchill – dizia que “é preciso livrar-se dos que podem atentar contra os nossos projetos, mas com sutileza, sob pena de daná-los”. É o que o prefeito estaria fazendo, de acordo com parcela do povo.
Há também histórias escabrosas: a empresa que topa coletar o lixo mediante acordo emergencial pertenceria a Nenê Constantino, dono “de fato” das empresas de ônibus. O acerto seria uma retribuição à ajuda à campanha. Outros dizem que a empresa é do Daré, conhecido capitalista bauruense que navega em todas as águas.
Ninguém tem dúvidas da honestidade do prefeito e nem ele precisa de atestados de idoneidade. A vida pública nunca o corrompeu. Mas também nunca o ensinou a fazer política. “Um galo sozinho não tece uma manhã” – diz o poema de João Cabral de Mello Neto. Que dirá as raposas que freqüentam o galinheiro na calada da noite...
O prefeito se defende: a imprensa passou o últimos seis anos reclamando da inércia do antecessor e agora que surge um governo com vontade de dar resposta rápida às mazelas, o criticam! Mas em matéria de tentar contratar sem licitação, fazer acordos milionários e pagar adiantado o prefeito anterior até que era lépido e fagueiro.
O que o povo não quer mais é esse governo do tipo estímulo-resposta, acerto-erro, avança-recua, de um passado recentíssimo, na base do se descobrirem a gente volta atrás.(O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)