Tribuna do Leitor

AS CENAS DO FILME DA VIDA DE UM BRASILEIRO


| Tempo de leitura: 3 min

Hora - 19:53, local - avenida Cruzeiro do Sul - quadras 24 e 25, início da subida, no sentido cidade-bairro, próximo ao Jardim Cecap, o destino final da longa viagem, um depósito de papel no bairro Ferradura Mirim, eu retorno para minha residência e observo as cenas do filme da vida da maioria dos cidadãos brasileiros, um pai de família com idade avançada, condução de um velho carrinho cheio de papelão, chuva, muita chuva, cobertura do tempo, paro por um instante e fico filmando apenas com a retina dos meus olhos as cenas a seguir.

Cena 01 do filme - (trabalhador brasileiro idade avançada). Cansado, abatido, empurrando o enorme carrinho, dentro de uma sacola uma marmita vazia, ele regressa ao seu lar; com certeza passou mais de 10 horas longe da esposa e dos filhos. Viu o sol nascer por detrás do morro que separa o bairro da cidade sem limites, ou por entre as árvores, engoliu a fumaça da poluição, enfrentou os buracos da rua deserta, viajou com seu carrinho por várias ruas à procura do papel para o sustento da família, ouviu pela manhã um concerto de pássaros ou uma sinfonia de buzinas dos ônibus lotados. Mas... por hoje tudo acabou, já estava de retorno para sua casa, não importa as condições, mas estava retornando para sua casa (seu barraco).

Cena 02 do filme - (missão cumprida). Chega, abre a porta da sua modesta casa e entra na sala mal iluminada pela lamparina ou pela lâmpada elétrica. Lamparina ou lâmpada elétrica, não importa. A cena é a mesma e ele é o mesmo. A cena: a esposa e os filhos à sua espera; ele, o pai.

- Hoje, consegui uns 13 reais com o meu carrinho cheio de papelão e vou fazer homenagens a minha esposa e meus filhos.

Cena 03 do filme - (retornei cedo para meu barraco).

- Tenho certeza que com meus 13 reais vou comprar o leite e o pão, a multiplicação dos pães foi invisível aos olhos dos homens, e visível aos olhos de Deus, e, talvez, com um pouco de carinho eu multiplicarei meus 13 reais. Mas eu, como pai, escolhi a noite de hoje para fazer um exame da minha consciência. Recebi talvez o maior presente de Deus, a forte chuva banhando o meu corpo cansado e dobrando o peso das minhas responsabilidades, meu carrinho cheio de papel, fiquei pensando se pelo menos uma vez por semana eu multiplicar com minha família os ensinamentos de Cristo, não terei tempo para minhas lamentações.

Cena 04 do filme - (o cansaço e as dificuldades me ensinaram a ser forte, e suportar o peso do meu velho carrinho debaixo da chuva).

- Hoje eu entendo que pesam sobre meus ombros grandes e graves responsabilidades, o carrinho, a marmita, são apenas símbolos materiais dessas responsabilidades. Os bons exemplos, o amor, a dedicação, a compreensão... estes sim, são responsabilidades. Mas ele sabe que tem que haver uma perfeita união entre o amor e o carrinho, sua ferramenta de trabalho, a compreensão e a marmita às vezes vazia. Sabe também que se isso acontecer, brilhará em sua casa não uma lamparina ou uma lâmpada elétrica, mas a luz clara e perene de unidade familiar.

E ele, o pai, verá nascer dentro de si, não por detrás de morros nem de árvores gigantes, mas verá nascer o sol da paz interior e da certeza de uma missão bem cumprida depois de um longo dia de trabalho, ainda que seja apenas com seu velho carrinho como catador de papel.

Cena 05 do filme de mais um dia de trabalho de um brasileiro, que apesar de tudo é brasileiro.

E assim termina mais uma cena do filme da vida de vários catadores de papel que eu conheço, pais, mães e filhos menores de uma família que a sociedade desconhece. (Jaime Prado - rep. cinematográfico da TVUSC - Mtb. 038076/441 - SP)

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