Bairros

Bauru tem 44 caramujos por habitante

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Nem filmes de suspense como “Os pássaros”, de Alfred Hitchcok, ou “Arachnophobia”, de Frank Marshall, foram capazes de superar a realidade de Bauru. A cidade aninha 15 milhões de caramujos gigantes africanos. O ataque das aves no primeiro roteiro e a invasão da aranhas, no segundo, perdem o impacto diante dos números que indicam a ocupação real dos moluscos no município. Acima ou abaixo da terra, existem 44 deles para cada habitante da cidade.

A quantia aproximada, elaborada pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), leva em conta os 300 quilos de moluscos já coletados, o peso médio de cada um deles (30 gramas), a média anual de ovos depositados por animal (1.500) e a população de Bauru, estimada em 344 mil.

A infestação silenciosa levou a cidade a ser a primeira do Estado de São Paulo a realizar uma campanha de combate ao caramujo em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para quem os números apresentados procedem.

“O controle tem de ser efetivo e constante, não sei por quanto tempo. Os caramujos ficam em estado de latência por dois anos sob a terra. O problema está diretamente associado à sujeira. Cada um tem de ficar responsável pela limpeza de sua propriedade (casa e lotes). O principal problema são os terrenos baldios (cerca de 70 mil em todo o município)”, explica o titular da Semma, Carlos Barbieri.

De acordo com ele, a secretaria recebe aproximadamente 20 reclamações diárias de moradores incomodados com a presença dos caramujos, espalhados por pelo menos 70 bairros de Bauru. As queixas também são registradas pelo Ibama, que assim como a Semma orienta sobre como coletar o animal.

“O plano de manejo foi elaborado por malacólogos (quem estuda molusco). Outros países usaram outros métodos, sem resultado e com dano ao meio ambiente”, explica a engenheira agrônoma Lélia Lourenço Pinto. Analista ambiental e chefe do escritório regional do Ibama, ela informa que o problema já foi identificado em cidades próximas como Tabatinga, Macatuba, Lençóis Paulista, Iacanga, Duartina e Agudos.

Apesar da orientação sobre a coleta ser a mesma em todos os municípios, moradores de cada um deles lançam mão de estratégias próprias para espantar o bicho, que atualmente ameaça principalmente a agricultura e o meio ambiente, em detrimento à saúde pública. Por enquanto, não há registros em território paulista de doenças em humanos transmitidas pelos moluscos.

Origem

Originário da África, o caramujo gigante africano foi introduzido no Brasil por volta de 1988. Na época, criadores de escargot verdadeiros da espécie Helix aspersa acreditavam ter encontrado uma alternativa viável de mercado. Eles percorreram várias cidades do País para oferecer, ao custo de R$ 5 mil, kits com 30 animais e uma fita de vídeo sobre como criá-los em cativeiro.

O segmento vislumbrava no caramujo-gigante a possibilidade de obter mais carne que o escargot, porque o africano se reproduz facilmente e é cerca de três vezes maior. Mas como os consumidores não apreciaram o sabor, a textura e o aspecto da carne, a alternativa transformou-se num problema.

Para livrar-se dos moluscos, os criadores os soltaram em rios, matas e terrenos baldios. Por ser um animal bastante adaptável às adversidades do ambiente, ele não encontrou dificuldade para crescer e se multiplicar em território brasileiro, por onde se alastrou em quase todos os estados.

O problema não é uma exclusividade nacional. Os moluscos também provocaram danos nos Estados Unidos e na Austrália, informam o Ibama e a Semma.

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