Dividir espaço com a comunidade de caramujos instalada em Bauru não passa de um incômodo para a população da cidade. Tanto que, por enquanto, o problema ainda não se tornou um caso de saúde pública. Até porque não há registro no Estado de São Paulo de doenças em humanos transmitidas pelos moluscos, hospedeiros de dois vermes.
Um deles (Angiostrongyus costaricensis) pode provocar fortes dores abdominais, febre, perda do apetite e vômitos, podendo culminar com a perfuração do intestino. O outro (Angiostrongyus contonensis) é causador de um tipo de meningite, que ocorre quando o verme se aloja no sistema nervoso central do paciente. Além de causar a inflamação das meninges, pode levar à cegueira, paralisia e, em casos extremos, à morte.
“O verme pode estar tanto no interior do muco do caramujo quanto no rastro de secreção que ele secreta para andar. A pessoa pode se contaminar após manusear o molusco e levar a mão à boca ou ao ingerir alimentos sem a higienização adequada”, alerta Maria Helena Abreu, diretora de Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da Secretaria Municipal da Saúde.
A transmissão preocupa o obreiro José Ortiz. Ele conta que o terreno vizinho à igreja onde trabalha está infestado de caramujos, mas, mesmo assim, muitas crianças vão até lá para colher frutas como manga e goiaba. “Às vezes a gente vê moleque pegando os moluscos até na mão. A gente fica bravo e eles soltam. A fé ajuda, mas a pessoa também tem de se cuidar”, diz após espantar-se com o tamanho dos moluscos.
Apesar de todas as precauções para evitar contato com os bichos, Érika Cristina Gomes não descarta a possibilidade dela e da filha de 5 meses terem se infectado pelos vermes transmitidos pelos caramujos. “Já faz dois meses que dói minha barriga. Vou ao médico e eles não sabem o que eu tenho. Além disso, em 15 dias, minha filha foi internada duas vezes. Também não sabem o que ela tem”, comenta a moradora do Parque Real.
Na opinião de Érika, como o problema é recente, os profissionais de saúde estão sujeitos a erros no diagnóstico. Porém, de acordo com a diretora do DSC, todas as equipes das unidades de saúde municipais receberam folhetos com orientação sobre as moléstias transmitidas pelos moluscos, com os respectivos sintomas. “Estamos preparando um outro ofício para reiterar”, acrescenta Abreu.
De acordo com ela, a Secretaria Municipal de Saúde está envolvida no trabalho de combate aos caramujos por tratar-se de uma ação preventiva ambiental.
Proibição
A criação e comercialização de caramujo gigante africano está proibida em território paulista desde julho do ano passado, quando a lei número 11.756 foi aprovada pela Assembléia Legislativa.
De acordo com ela, o governo do Estado de São Paulo não oferecerá apoio a qualquer entidade que promova a criação do molusco, alvo de um plano de controle, coleta e destruição.