Saúde

Síndrome do berçário

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Quatro meses depois de vir ao mundo, mamãe volta a trabalhar e o bebê é deixado num berçário. Uma realidade para a imensa maioria das famílias e um transtorno para os pediatras. Com o sistema imunológico imaturo, os bebês estão muito mais suscetíveis a doenças e tornam-se vítimas do que a médica Maria Clara de Magalhães batizou de “síndrome da creche” ou “síndrome do berçário”.

Luíza tinha apenas dois dias de berçário, quando começou a vomitar. Passou um final de semana transitando entre sua casa e o hospital, tomando soro e injeções. Diagnóstico: rotavírus, provavelmente pego na escolinha.

Antes que o mundo se volte contra as creches, os médicos garantem: os berçários não têm culpa. O que acontece é que o organismo do bebê ainda não está pronto para enfrentar vírus e bactérias e, na creche, ele vai encontrar uma infinidade desses microorganismos - no ar, nas roupas, nos objetos, nas outras crianças, nas instrutoras. Em casa, o bebê também está constantemente em contato contato com os germes.

Só que o leite materno se encarrega de “vacinar” o pequeno contra esses agressores, pois ele transfere para o bebê todos os anticorpos (soldadinhos de defesa) presentes no organismo da mãe. Com o tempo, conforme vá tendo contato com os germes, o bebê fabricará seus próprios anticorpos.

Só que existe uma infinidade de vírus e bactérias diferentes no planeta e o organismo da mãe só tem anticorpos contra aqueles com os quais convive (em casa, na roupa que o marido traz do serviço, no bairro). Quando chega ao berçário, o bebê encontra outros tantos microorganismos, vindos de diferentes lugares e, aí, seu organismo pode não ter os anticorpos adequados para impedir uma contaminação.

Esse processo ocorre a cada segundo com todas as pessoas do mundo, durante toda a vida. Ao respirar, falar, tocar, o ser humano entra em contato com milhares de germes. Se o corpo já tem anticorpos, o “bichinho” é atacado e pronto. Mas se o sistema imunológico não reconhece o “intruso”, ele se instala e o corpo adoece.

A única diferença entre um adulto e um bebê, é que o bebê acabou de chegar ao mundo e seu organismo ainda não conhece a maioria dos tais “intrusos”.

E como todo o seu organismo ainda está imaturo, os danos causados por esses germes também tendem a ser maiores, principalmente se a mãe tiver que reduzir ou interromper o aleitamento pela volta ao trabalho.

“O vírus sincicial respiratório, por exemplo, é uma causa freqüente de resfriados leves em crianças maiores e adultos, nos quais o vírus se restringe às vias aéreas superiores (região do nariz). Entretanto, num bebê, ele pode causar graves quadros de bronquiolite, porque o vírus atinge também os bronquíolos (pulmões), causando grave inflamação e dificuldade para respirar como se fosse uma asma”, explica a médica.

Coordenadora da Pediatria do Hospital Quinta D’Or, médica da Universidade Federal Fluminense e do Hospital da Lapa, no Rio de Janeiro, Maria Clara afirma que quanto mais cedo o bebê vai para o berçário, maiores são seus riscos de apresentar infecções.

O pediatra Francisco Garcia Neto, de Bauru, confirma o problema e diz que a situação é tão antiga que as instituições pediátricas já consideram “normal” que o bebê tenha entre seis e sete infecções (gripes, resfriados, faringites e otites) no primeiro ano de vida.

“Mas se a gente consegue manter a criança no leite materno, isso diminui. E se a mãe não precisa trabalhar e pode ficar em casa com seu bebê, a criança consegue passar por esse primeiro ano de vida sem ter que tomar antibióticos”, compara.

O médico destaca que os remédios são essenciais quando existe uma doença, mas são produtos químicos e o correto seria não ser preciso usá-los. “Se o bebê tem infecções de repetição e toma muitos antibióticos, podem surgir os efeitos colaterais, como dificuldades do organismo em absorver algumas vitaminas ou diarréias por danos à flora intestinal”, observa.

Além disso, ele lembra que o risco aumentado de infecções em bebês representa um custo altíssimo para toda a sociedade. “Para o sistema de saúde, pelo maior número de consultas e internações; para a empresa da mãe, que terá de faltar ao serviço para cuidar do filho; para a família, que terá um gasto significativo com medicamentos. Isso, claro, sem contar os prejuízos para o ganho de peso da criança, que não vai se alimentar bem enquanto estiver doente”, acrescenta.

Diante destas constatações, a médica Maria Clara de Magalhães levanta uma bandeira ousada: é preciso mudar a legislação. Na opinião dela, é recomendável esperar que o bebê cresça um pouco mais antes de ser colocado numa creche. Para ela, a melhor solução seria ampliar o período da licença-maternidade.

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