Após elaborarem uma lista com os dez maiores riscos que assombram a humanidade, os integrantes da Reunião de Davos, num balanço anual dos principais problemas da humanidade, chegaram à conclusão de que não há nenhum líder capaz de conduzir os povos no enfrentamento daqueles males.
Ali, finalmente resolveu-se pensar na África, havendo quem propusesse a criação de um fundo de ajuda ao continente, o qual deveria ser posteriormente “ressarcido”, mui provavelmente acrescido de juros. Só o tempo dirá se as intenções com o continente esquecido são verdadeiras ou mera peça de retórica. A conferir daqui a um ano, na próxima reunião do Fórum.
Apenas a sua projeção na sociedade seria inviável, pois ele diria coisas que as pessoas não querem ouvir; talvez até se dispusessem a fazê-lo e concordar com suas idéias, pois isso seria politicamente correto, mas não moveriam uma palha no sentido de executar as ações e fazer os sacrifícios necessários para lutar contra uma que seja daquelas dez principais ameaças.
O bombardeio de incentivo ao consumo é constante, certamente nenhum acionista das grandes empresas estaria disposto a abrir mão dos lucros; os resultados dos balanços, por mais generosos que sejam, são sempre insuficientes, é preciso sempre superá-los, ano após ano. Aquele Bill Gates que posa de benfeitor e que, vez ou outra, faz uma caridade através de sua fundação, da qual, provavelmente se ressarce, mandando a conta para o Tesouro americano, através de deduções no imposto de renda, estaria disposto a baixar os absurdos preços monopolistas que pratica com seus programas Windows?
Pois é isto o que o grande líder possivelmente diria: o mundo tem que parar de pensar em crescimento - e parar, por ironia, é justamente uma das grandes ameaças – pois a Terra não tem condições de suportar uma China crescendo a quase 10% ao ano, consumindo cada vez mais petróleo e agravando o efeito estufa.
Fala-se muito em crescimento sustentado, um termo vazio diante da velocidade com que os governos teimam em aumentar seu PIB; absolutamente inexeqüíveis por um período de, digamos, dez anos. Neste lapso de tempo, a economia da China terá dobrado de tamanho e o seu consumo, idem.
Neste meio-tempo, talvez a natureza faça as contas e decida que 6,2 bilhões de habitantes - o total presente dos hóspedes do mundo - é demais e resolva solucionar o problema por conta própria.
Epidemias, como uma gripe do frango se espalhando entre humanos – já há casos, fatais, registrados do vírus H5N1 -, preço do petróleo, terrorismo, fome, todas estas ameaças parecem ser pequenas diante do grande e verdadeiro dilema; uma conta que não fecha: o mundo precisa continuar crescendo, mas o planeta não tem recursos suficientes para isto; e, mais importante, antes mesmo de os recursos da Terra se exaurirem, de as reservas de petróleo esgotarem-se, o aquecimento global causado pela irrefreável expansão do consumo de energia que é conseqüência do crescimento continuado, já terá elevado a temperatura terrena a um nível tal que a vida simplesmente haverá se tornado inviável.
É lamentável a constatação de que o progresso tenha trazido consigo a devastação do planeta e a humanidade, em conseqüência, haja caído num beco sem saída, deixando as cabeças pensantes do Fórum de Davos convictas de que, simplesmente, não há quem conduza a nau da humanidade a um porto seguro.
O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista - e-mail: lleitaodacunha@aol.com