“No fim da estrada vicinal, você vê a placa: Sítio do Tom. A entrada é simples, na porteira há sempre um cadeado trancando-a, mas nós, freqüentadores do sítio, já sabemos o macete para abri-la. Sítio adentro, você irá encontrar um dos lugares mais belos e bem servidos pela natureza, às margens do rio Turvo.
Era uma quarta-feira do mês de novembro de 1992. Fomos para lá pescar, mesmo sabendo que durante o período (defeso), a prática da pesca com redes é proibida. Levamos muito apetrechos, tais como anzóis, redes de várias malhas, comida, pois sabíamos que o Turvo encheria com as chuvas dos dias anteriores.
Descarregamos nossas parafernálias, abrimos a casa, a chave estava em nosso poder, ajeitamos as tralhas e fomos ver como estava o rio. Apesar da forte chuva que caíra no dia anterior, o Turvo estava quieto, suas águas estavam límpidas, mas baseado no que diziam os moradores ribeirinhos, o Turvo só enche depois de três ou quatro dias de chuva intensa. Mesmo assim, começamos a armar nossas redes dentro e fora d’água, em lugares que eu sabia que com a chegada das águas se transformaria em vazantes. Redes armadas fora d’água era motivo de gozações. O Cidão dizia:
-Você vai apanhar um bocado de jurutis amanhã nessas redes.
E eu, quieto, seguro de mim, retrucava:
- Você não conhece nada do Turvo.
Armamos todas as nossas redes e quando demos por conta já era tarde, haja vista o grande número de ‘azuis’ (pernilongos) que nos rodeavam, além da sinfonia dos sapos que já começara.
Subimos para casa, agora nossa preocupação era arrumar algo para comer, já que estávamos exaustos e com muita fome. Após uma ‘jantinha’ rápida, fomos deitar para no próximo dia começarmos nossa aventura. Tarde da noite, já podíamos ouvir o ronco das águas, nossa ansiedade aumentara. O dia demorou a chegar.
Nem bem queríamos saber de café, levantamos e fomos direto para o rio. Estava bravio, suas águas tornaram-se barrentas, transbordavam e em lugar que outrora era pasto, se transformara em um verdadeiro pantanal. Era tanta água que encobria as copas dos mais altos ingazeiros, já não sabíamos onde era seu leito, era uma correnteza só. Nossas redes desapareceram, bóias afundaram.
Começamos a procurá-las, o rio estava muito fundo e se tornara perigoso. Com muita cautela, localizamos nossas redes e começamos a verificá-las. No começo, nada de peixes.
Era aproximadamente 9h, o sol despontara meio sonolento, meio preguiçoso, parecia estar envergonhado de tanta água. Descemos rio abaixo em busca de outras redes, quando de repente nos deparamos com um fato que nos surpreendeu.
O ronco das águas agora era abafado pelo roncar dos peixes, na tentativa desesperada de subir o rio. Centenas, milhares de peixes, das mais variadas espécies, desde os pequenos canivetes até os maiores curimbatás. Parecia um ritual, um verdadeiro espetáculo oferecido pela natureza, jamais visto por nós. Era a piracema!
Já não estávamos preocupados em pescar, agora teríamos que apreciar ao máximo aquele momento tão raro. Os peixes pareciam estar zonzos. Poderíamos até apanhá-los com as mãos. Enormes curimbatás, tabaranas, tambiús, peixes ariscos se tornaram presas fáceis.
Nossas redes estavam apinhadas de peixes e aquela que no dia anterior era chamada de arapuca para juriti era, sem sombra de dúvida, a que mais tinha peixe. Era tanto peixe preso que os galhos dos ingazeiros, que serviam de amarras para as redes, balançavam como se fosse uma ventania.
Nós, com uma ganância sem tamanho, conseguimos apanhar uns 150 quilos de peixe. Permanecemos ali por um tempo vendo o bailar dos peixes. Devagar, o espetáculo foi acabando, o Turvo tornara-se silencioso, suas águas espumosas (dizem os ribeirinhos que isso acontece devido aos ovos postos pelos peixes) pareciam estar cansadas de ver tanto peixe, assim como nós. Tudo emudeceu. Notamos que até os pássaros se quietaram, um silêncio total.
Era mais uma piracema que acabara de acontecer. Talvez a última que presenciamos, pois daquele dia em diante, nunca mais consegui presenciar tão belo espetáculo oferecido pela mãe natureza.
Hoje, com o passar dos anos, fico pensando como o homem consegue ser tão ganancioso e me encabulo de pensar que fizemos isso. Mesmo sabendo que os ‘coitadinhos’ estavam subindo para desovar, fomos à captura, um crime contra as leis da natureza, além de outras.
Eu já não pesco mais de rede. Cansei de tão perverso lazer. O Turvo também cansou, suas águas já não são mais tão límpidas, a areia deslocada pelo desmatamento indiscriminado de suas matas ciliares começou a assoreá-lo. Os peixes não conseguem subir, porque há também a poluição, a descarga de esgoto não tratado, as caixas de contenção de enxurradas, além da pesca predatória.
Hoje fico pensando quando poderei ver um espetáculo como aquele. Mas no Turvo tenho a certeza que jamais verei. Infelizmente.”
Antônio Paulo Grachi é pescador, mas não escritor