O avanço em qualidade, otimização e prestação de serviços na área de saúde dependem do combate ao modelo hospitalocêntrico de gestão no Brasil. A avaliação é do secretário Estadual de Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, que concedeu entrevista exclusiva ao JC durante visita a Bauru junto com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), na última sexta-feira.
Barradas aponta três questões fundamentais para a transformação dos referenciais sociais de atendimento e bons serviços junto à população. Uma é o bom funcionamento da rede básica, com a ampliação dos programas de saúde da família. A segunda ação, também articulada com a primeira, é a de mudança gradativa na cultura das pessoas, que tendem a procurar os hospitais à rede básica. O terceiro componente desse sistema é a formação e cultura médicas, na visão do secretário ainda marcada por condutas de desperdício e descomprometimento com o sistema.
Na entrevista a seguir, Luiz Roberto Barradas Barata faz uma avaliação do sistema e diz como vê a criação das organizações sociais como um dos modelos de gestão que podem colaborar com a eficiência no setor:
Jornal da Cidade - Com o advento das organizações sociais, o Estado mudou a forma de gestão na saúde, pactuando e interferindo nas demandas. Como o senhor vê esse modelo na comparação com o anterior, de transferência simples de verbas?
Luiz Roberto Barradas Barata - O que nós estamos introduzindo é uma nova forma de gestão, onde procuramos priorizar a qualidade e os resultados. Queremos que o serviço público atinja esses patamares. Os hospitais de Organização Social (OS) têm metas a cumprir e recebem os recursos correspondentes a essas metas. Se cumprem, os recebem, se não cumprem, não recebem. No caso das Santas Casas, dos hospitais próprios do Estado e dos hospitais dirigidos por entidades, como a Associação Hospitalar de Bauru (AHB), o nosso intuito é levar o atendimento que hoje nós estamos fazendo com o modelo de contrato de gestão das organizações sociais. Para você ter uma idéia, sete hospitais da rede de Secretaria de Saúde já trabalham com esse modelo de gestão, não trabalham mais com o orçamento fixo.
JC - Qual a avaliação da secretaria sobre os contratos de gestão firmados através da Unesp, como o caso do Hospital Estadual de Bauru?
Barradas - A Unesp é uma das nossas boas parceiras. Temos parcerias com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), através da Faculdade de Medicina de Botucatu, temos com a Universidade de Campinas (Unicamp), Hospital Estadual de Sumaré, temos com a Universidade de Santo Amaro (Unisa), na Capital, que toca os hospitais do Grajaú e de Francisco Morato, temos uma parceria com a Universidade Federal de São Paulo, que é responsável pela gestão dos hospitais de Diadema, Taboão da Serra e agora de Mogi das Cruzes. Todas as universidades que vêm colaborando com o governo do Estado com esse modelo de gestão têm ganhado os prêmios de qualidade, como o Hospital Estadual de Bauru, que ganhou esse selo de acreditação pelo nível de serviços prestados. Sumaré e Pirajussara também receberam esse selo de qualidade. O Estado de São Paulo está mostrando para o Brasil que é possível conciliar o nível de excelência da universidade com prestação de serviços de qualidade para a população.
JC - Olhando os números de atendimento do HE encontramos que cerca de 60% dos registros estão fora de sua função secundária e terciária. Que experiência o senhor tem das outras unidades para corrigir essa distorção diante da rede municipal?
Barradas - A vida da assistência médica da população é um tema complexo. Não há como implantar um modelo do dia para a noite e mudar a cultura. Você reflete que a população está acostumada a ir a um hospital, ao invés de procurar um Posto de Saúde perto de sua casa, onde pode não haver o médico; se tem médico, ele pede um exame que tem que ser feito em outro local. Então a tendência da população é hospitalocêntrica. O hospital tem uma atração para a população. Mudar esse modelo, mudar a forma como as pessoas procuram a saúde num momento de necessidade não é uma coisa para ser feita em dois anos. É demorada. Mas acho que aqui em Bauru a gente começa a dar os primeiros passos nesta direção. Essa articulação que o Hospital de Bauru faz com os 39 municípios, permitindo que cada um tenha uma cota de exames, consultas no HE, vai com o tempo transformando essa cultura.
JC - O prefeito de Bauru colocou o desafio de reorganizar a rede básica, que integra essa distorção de atendimento no HE que discutimos. Como é possível sair dessa situação até esse modelo que o senhor cita?
Barradas - É muito importante que Bauru caminhe para a gestão plena da saúde e que o gestor municipal articule e tenha uma boa rede básica para poder atender a população. O programa de saúde da família é muito importante. As pessoas, num momento de dificuldade, devem ter quem procurar na sua região para tirar dúvida, ter conselho, saber qual é o melhor local para atender ao seu problema de saúde. E isso se faz através de um programa bem articulado de assistência básica. O que o prefeito de Bauru está propondo a fazer, recuperar sua rede básica e estender o programa de saúde da família, caminha nesse sentido. Nível básico não quer dízer nível menor, quer dizer o primeiro nível. É como no ensino. Todos nós temos que ir no primário. Sem isso é impossível chegar á universidade. Na saúde é assim. A pessoa procurar direto o hospital, a ressonância magnética, nós não achamos um absurdo por uma questão cultural, mas devíamos achar se essa pessoa não passou pelo ciclo básico. É isso que o prefeito Tuga quer fazer em Bauru e vamos fazer em parceria. O governo do Estado vai ajudar, a prefeitura está tentando se recompor, se reorganizar.
JC - Mas parte dessa distorção tem relação com a conduta médica. Os mecanismos de controle de condutas sem critério são eficazes se ainda temos muito desperdício e pedidos de exames sem necessidade?
Barradas - A gente precisa fazer uma trabalho importante nesse setor. E daí o cuidado que a gente tem tido no governo do Estado com as nossas faculdades. São as nossas faculdades de medicina que formam nossos médicos e a gente precisa influir nesse aspecto da formação profissional. Precisamos passar para os alunos que antes de pedir a tomografia temos que ter examinado o paciente, ter feito um raio X, ter conhecido a vida dele. Só depois disso é que devemos encaminhá-lo para exames mais sofisticados. Se a gente não conseguir mudar a cultura médica, a formação médica, não vamos corrigir essas distorções. Daí a importância dos nossos centros formadores universitários. Então temos que mudar a forma da população procurar o sistema e também a forma do médico agir. Precisamos criar médicos de família. Nossas faculdades formam muitos especialistas e poucos clínicos gerais, poucos médicos que possam dar esse primeiro atendimento. Estamos em um trabalho árduo com as universidades na formação desse profissional mais adequado a nossa realidade. E esse é um movimento.
JC - Em 2004, o senhor discutiu a instalação de agências de saúde, o que inclui institutos como o Lauro de Souza Lima. Em que situação está esta ação?
Barradas - O projeto de criação da Agência de Controle de Doenças está pronto, foi elaborado pela Secretaria de Saúde e neste momento está em fase de conclusão pela Casa Civil do governo para ser encaminhado ainda neste início de ano à Assembléia Legislativa. Precisamos da lei para criar essa agência. O governo preparou esse projeto nos dois anos anteriores, agora o projeto vai para a Assembléia. Para a população e os municípios, a agência não muda nada em seu cotidiano. Para o governo, muda, porque nós vamos dar uma nova forma de coordenação, uma nova forma de administração desses recursos desses institutos podendo ampliar suas condições de trabalho e o produto do seu trabalho. A agência tem o dom de otimizar os recursos, de permitir que um mesmo profissional e um equipamento possa ter a mesma qualidade e produção muito maior do que a existente hoje. Mas a vida do cidadão não vai sofrer alteração. A alteração é interna, na forma de gerenciar, com mais economia.