Bairros

Periferia 'guarda' terreiros

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 2 min

É tarde de domingo quando as primeiras batidas de atabaque começam a soar em uma casa simples na rua Vicente Gimenez, Alto Paraíso. Aos poucos, e discretamente, pessoas chegam e se preparam com trajes especiais para o início do ritual religioso.

Para quem está lá fora, a fachada da casa nada indica. Nenhum cartaz ou letreiro chama para a cerimônia que terá início em poucos minutos. Além dos filhos-de-santo, seletos são os convidados a presenciar tudo o que se passará nesse barracão.

Com o dialeto do povo iorubá-nagô, a mãe-de-santo faz as primeiras saudações, que marcam o início dos trabalhos. Embalados por atabaques e agogôs, os filhos-de-santo começam a cantar e dançar em círculo, saudando e invocando os orixás - divindades representadas pelas forças da natureza ou pelos fenômenos a ela relacionados.

Cada filho, representando um orixá, toma a benção e pede licença à líder religiosa. Num ritmo crescente, os atabaques repicam e embalam a dança circular, que envolve os médiuns em sua preparação para receber as entidades divinas.

Num local de pouca visibilidade e protegidos do preconceito que os cerca, começa mais um ritual sagrado no terreiro de camdomblé da mãe-de-santo Roberta Miriam Amorim.

À exemplo do galpão no bairro Alto Paraíso, há em Bauru muitos templos em atividade. Cerca de 300 estão registrados na Federação Espírita de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo.

Somando os que atuam sem regulamentação, a estimativa é de que existam aproximadamente 1.000 templos no município - sendo a quase totalidade de umbanda. A informação é da pesquisadora de cultura religiosa Dalva Aleixo, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que realizou na década de 90 uma dissertação de mestrado sobre o tema.

Mais de 90% dos terreiros, segundo Dalva, estão concentrados na periferia. Vítimas de marginalização e preconceito, esses espaços foram sendo, ao longo da história, constituídos distante dos grandes centros. Em cômodos improvisados dentro da própria residência dos líderes espirituais (pais e mães-de-santo), os adeptos puderam manifestar suas crenças religiosas.

Nas primeiras décadas do século passado, os adeptos de cultos afro-brasileiros eram, inclusive, vítimas de repressão policial.

Hoje, o contexto é outro. Mas o fato é que essas religiões - que guardam entre si muitas diferenças - continuam sendo alvo de preconceito e incompreensão por parte da sociedade. É o que afirmam praticantes e pesquisadores de cultura popular ouvidos pelo JC nos Bairros.

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