Polícia

'Doação' de bebê vira caso de polícia

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Uma suposta doação de um bebê recém-nascido a um casal mobilizou ontem policiais militares da Base Sudeste, levantou a suspeita - não confirmada - de rapto e terminou com todos os envolvidos na delegacia. O saldo da confusão foi uma mãe sem a filha, um casal com planos frustrados de “adoção” e uma criança de dois dias afastada da família, abrigada sob a guarda do Conselho Tutelar de Bauru em Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente.

A movimentação teve início ontem pela manhã, quando a Base Sudeste da Polícia Militar (PM) foi acionada para averiguar um suposto rapto de uma menina recém-nascida. Segundo a PM, a mãe da criança admitiu que havia feito um acordo com um casal, ainda durante sua gravidez, para doar seu bebê logo após o nascimento - que aconteceu no sábado à noite.

Ainda segundo relato da mãe à PM, com a chegada da criança (seu terceiro filho), ela se arrependeu, mas, mesmo assim, o casal que “adotaria” a criança a teria retirado de sua casa sem autorização. Após diligências, a PM localizou o casal, já com a criança em casa, e apresentou todos os envolvidos ao plantão policial. O suposto pai da menina, que também estava na delegacia, foi quem acionou a PM após o “sumiço” do bebê.

Segundo o cabo Paulo Deganutti, que comandou a operação, na delegacia a mãe da criança apresentou pelo menos três versões para a história. “Ela não falava coisa com coisa”, atesta o policial, indicando que a garota, de 20 anos, teria sinais de perturbação mental. A intermediação da doação teria sido feita por uma vizinha da mãe da criança, que conhecia o casal pretendente à “adoção”.

A delegada Marilda Pansonato Pinheiro, responsável pelo plantão policial, diz que recebeu o caso inicialmente como sendo de rapto, mas que não havia elementos para este tipo de crime. “O casal que pretendia ficar com o bebê aparentemente desconhecia a irregularidade e achou que poderia agir desta maneira”, diz a delegada. Os “pais adotivos” já estavam de posse, inclusive, de alguns documentos da criança.

Pinheiro também confirmou que a mãe da criança apresentou versões conflitantes no mesmo depoimento e que, “aparentemente teria problemas mentais”. A delegada garantiu ainda que, em momento algum, ficou caracterizada a utilização de dinheiro no suposto acordo. Segundo ela, será instaurado inquérito policial para averiguação do caso.

Diante do que classificou de um “impasse”, a delegada Marilda Pinheiro acionou o Conselho Tutelar e determinou que a criança ficasse abrigada sob responsabilidade do órgão. “Em casos como este o melhor é adotar o equilíbrio e o bom senso para resolvermos o problema da melhor forma possível”, explicou. Por se tratar de um caso de família, a delegada preferiu preservar os nomes dos envolvidos.

Sonho antigo

O casal, porém, fez questão de se manifestar publicamente. A cozinheira Maria Ferreira Leite, 50 anos, e o metalúrgico Joselito Neves Miranda, 45 anos, garantem que não pretendiam fazer “nada de errado”. “Já tínhamos planejado contratar um advogado, pegar os documentos (do bebê) e procurar o juiz para fazer (o registro) tudo certinho”, diz Leite.

Ela confirmou que o “acordo” com a mãe do bebê foi feito ainda durante a gestação e que, aparentemente, tudo caminhava bem, inclusive com a anuência da família da “doadora”. Leite nega ainda que tenha retirado a criança à força. “O próprio pai dela (da mãe do bebê) disse que podíamos levar, pois ele não teria condições de ‘ficar com mais uma criança para sofrer’, e que acreditava que a menina estaria em boas mãos”, relatou, reafirmando que pegou a menina “numa boa”.

Por tudo isso, diz a cozinheira, os preparativos para a chegada a tão sonhada filha já estavam quase todos pronto. “Já tinha quarto montado, enxoval completo e até máquina para tirar foto dela quando chegasse. Só faltava o carrinho”, diz a cozinheira. Ela e o companheiro, que vivem juntos há 13 anos, afirmam que ter uma menina era um sonho antigo. “Tenho cinco filhos homens e dois enteados (filhos de Joselito). Só faltava uma menina”, diz.

A cozinheira diz que preferiu o “acordo” porque, segundo ela, os procedimentos legais de adoção seriam “muito demorados” e extremamente “burocráticos”. “Quem não tem casa, por exemplo, não consegue pegar (uma criança). Como moramos de aluguel, preferi este acordo”, justifica.

Emocionada, a cozinheira adianta que vai tentar “um recurso na Justiça” para ficar com a guarda do bebê. “Estou apaixonada pelo cheirinho dela que ficou aqui”, confessa, chorando, enquanto mostra a roupinha que envolvia o bebê até a chegada da polícia em sua casa.

A mesma disposição de luta pela posse da criança foi demonstrada por seu suposto pai, o ajudante de pedreiro Ivan da Silva, 19 anos. À reportagem, ele disse que não sabia do tal acordo feito entre o casal e a mãe da menina, a quem ele trata de ex-namorada. “É meu sangue e quero cuidar dela”, avisa, adiantando que também recorrerá à Justiça pela ficar com a guarda.

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