Neste momento, está começando a minha carta para a Tribuna do Leitor. Teoricamente, ainda não começou, tendo em vista que eu ainda não apresentei nenhum assunto que não fosse o próprio fato de eu estar escrevendo uma carta para a Tribuna do Leitor. Na prática, a carta já começou, posto que vocês leram o que foi publicado; se foi publicado o que vocês estão lendo, a carta começou onde vocês começaram a ler.
Esta minha carta metalingüística e egoísta conta uma história que aconteceu comigo e que merece a atenção dos senhores. Merece pois, no dia 6 de fevereiro deste ano, publiquei minha poesia no JC, na seção Ao pé da Letra. A poesia chama-se “Canção Queimada”. Tema: arquivos da ditadura militar queimados numa base de Salvador, algo que foi motivo de longas matérias por algumas semanas. Só tem um detalhe que eu inicio no outro parágrafo.
As pessoas esqueceram-se completamente deste acontecimento. Não lembram de mais nada. Todo mundo veio falar comigo sobre minha poesia, dizendo que estava maravilhosa, que eu escrevo bem (obrigado, obrigado), mas que não entenderam paçocas do que eu escrevi. Então, de poeta, passo a ensinador, explicando o trabalho. Aí, a pessoa faz “ahhh... por que você não publicou na época?”
Quer dizer: já esqueceram que um pedaço muito sério e de uma importância brutal da história deles foi queimado. Esqueceram que um dos motivos da nossa cultura ser tão primitiva, da nossa arte ser tão duvidosa, foi queimado em Salvador. As pessoas se esquecem mesmo! Talvez nem se lembrem de que teve ditadura, censura, eleição... Lula... em quem votaram... Georgina de Freitas... esqueceram. É festa! É Carnaval ainda.
Agora, a carta acabou e eu sinto uma ponta de arrependimento por cada palavra e várias pontas, que formam uma grande reta, de orgulho, por ser quem eu sou e ter esperado a memória e a concentração esfriar, feito coxinha de bar.
Límerson Morales Costa - estudante - 17 anos