Articulistas

Quem tem medo da tecnologia?


| Tempo de leitura: 3 min

Alguns podem achar que é “frescura”, mas a literatura médica registra uma nova patologia que pode levar o ser humano à loucura: a ciberfobia, ou tecnofobia. Os pacientes são profissionais adultos estressados por se verem obrigados a aprender novas tecnologias. Manifestam sintomas como náuseas, palpitação, tontura, mal-estar ou suor excessivo.

Imagino o drama de um profissional que por medo ou fobia se vê impedido de desenvolver seu trabalho com satisfação e tranqüilidade. Esse problema é comum aos jornalistas. Quando a “Folha” começou a substituir as velhas “máquinas de escrever” pelos computadores, nos anos 70, muitos jornalistas ficaram ressentidos com essa ruptura cultural ocasionada por uma “estranha” máquina e se negaram a aderir à modernidade. Chegaram a alegar ser impossível raciocinar sem ouvir o tec-tec das velhas Remington e Olivetti. Perderam o emprego, muitos deles profissionais nacionalmente conhecidos, mas não cederam à novidade eletrônica. Cheguei a conhecer o “Olimpicus”, como era chamado Thomaz Mazzoni, de “A Gazeta Esportiva”. O apelido vinha do fato de ter feito cobertura da maioria das Olimpíadas e Copas do Mundo. Era o redator esportivo mais badalado do País nos anos 50 e só escrevia à mão. Somente um velho linotipista - meus alunos nem sabem o que é uma Linotipo, máquina de composição a chumbo derretido que reinou na imprensa mundial durante mais de um século - compreendia os seus garranchos. Hoje os jornalistas tremem quando a empresa decide modernizar os programas utilizados como suporte para se fazer textos. Para economizar mão-de-obra, querem que os redatores também façam a diagramação, ou, para ficar up-to-date, o “layout gráfico” da página.

Lá em casa, toda vez que minha mulher quer assistir a um filme pelo DVD, tem que chamar a filha. De microondas a gente só conhece o botão de esquentar a comida. Agora querem trocar o eletrodoméstico, meio desbotado, por outro mais novo, e nem isso mais vou saber.

Dizem que as tecnofobias atingem 10% da população. Na maioria das vezes, esses pacientes são competentes, inteligentes, responsáveis, sensíveis, com uma certa tendência a serem detalhistas e controladores. No ambiente de trabalho podemos perceber diversas fobias, como medo de falar diante dos outros, da imperfeição, das mudanças, de utilizar escadas ou elevador. Mas a de usar novas tecnologias, como computador, laptop, palmtop, entre outros, desencadeia as mais diversas reações. Essas manifestações deixam-se transparecer até no olhar das pessoas. Prejudicam seu desempenho profissional na medida em que não conseguem focar suas atividades sem se deixar influenciar pela sensação de medo e ansiedade.

Sem pretensão a psicólogo ou psiquiatra, tenho conseguido neutralizar certas fobias confrontando meus próprios temores. Desisti de ler os manuais de textos bizantinos. Vou apertando os botões do celular até acontecer alguma coisa. De tanto errar, acabo aprendendo. Mas é angustiante... Nos Estados Unidos tudo é feito por geringonças vistosas e cheias de botões com instruções em linguagem cifrada. Nas estações dos metrôs não existem mais guichês e muito menos funcionários com quem conversar. Se o usuário não é capaz de enfrentar o bicho mecânico, vai ter que ir a pé. Para entrar num cinema gastei uns quinze dólares até descobrir que as notas têm que entrar nas ranhuras com o George Washington de cabeça para baixo. Quando acertei, foi me devolvido o troco. Máquina honesta...

As pessoas não devem sofrer diante das novas tecnologias. Há aqueles que querem disfarçar, dando a entender que se trata da adoção de um estilo de vida. É medo, é neurose, e deve ser tratado enfrentando-se o problema tão logo seja percebido e admitido o sintoma pelo próprio paciente.

Até as pessoas mais humildes aderem às tecnologias, sem medo, e são felizes. No meu bairro, outro dia, cruzei com uma carroça onde se lia: “Fasso carreto. Celular .....” Mais abaixo vinha a advertência: “Não fassão ligação a cobrar”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários