Apesar do avanço tecnológico representado pelo e-mail (correio eletrônico por meio de computador), as correspondências à moda antiga, ou seja, por meio de cartas convencionais, continuam com um público fiel.
Faz parte deste grupo a estudante de jornalismo Gabriela Lobianco, 23 anos, dez deles dedicados a manter vivo um clube de cartas, outrora tão comum, mas que atualmente quase ninguém se interessa em participar.
A primeira amizade por correspondência começou quando ela tinha 13 anos. Lendo um gibi da Turma da Mônica, um nome na sessão cartas acabou chamando a atenção de Gabriela.
Ela decidiu então escrever e ficou aguardando uma resposta. Não demorou muito, a nova amiga respondeu. Gabriela vibrou ao receber a carta e a experiência a encheu de expectativa por estar descobrindo uma nova forma de fazer amizade.
Quatro anos mais tarde, o clube de amizades por correspondência havia crescido de tal forma que Gabriela começou a não ter tempo para responder todas as cartas. Eram cerca de 350 todos os meses, o que representava uma média de 35 cartas deixadas todos os dias pelo carteiro na portaria do prédio onde ela morava, em São Paulo.
Aos poucos, a falta de tempo, o cursinho, depois a faculdade foram ocupando cada vez mais o tempo de Gabriela e as amizades à distância tiveram de ser reduzidas drasticamente. Hoje, o clube não passa de dez cartas por mês.
No meio delas, estão o que ela considera as “cinco grandes amigas”. Cada uma de um lugar diferente do Brasil: Piauí, Maranhão, Taubaté, São Paulo e Minas Gerais. Dessas, Gabriela chegou a conhecer apenas uma pessoalmente.
Ela estava passando as férias em São Paulo quando resolveu marcar um encontro com a amiga de Taubaté. Apesar de tanto tempo se correspondendo, Gabriela lembra que quando se encontraram pareciam duas estranhas. Mas depois elas foram se soltando e passaram um dia agradável juntas.
A comunicação via e-mail é utilizada pelo grupo, mas apenas para alguns recados rápidos. A conversa mais demorada fica mesmo reservada para as cartas.
Cartas via revista
A troca de cartas é incentivada por diversas revistas do País. Além de manter esse contato com os leitores, algumas oferecem a oportunidade de fazer novas amizades ou conquistar um amor por meio de correspondências.
Esse é o caso de uma editora de Bauru, que possui cerca de 50 publicações. Ela recebe entre sete a oito mil cartas por mês, conta a coordenadora de atendimento ao leitor da empresa, Ieda Maria de Souza.
“O número de correspondências diminuiu um pouco com os e-mails, mas ela continua tendo um valor muito importante”, diz Ieda. Nas cartas, os leitores contam problemas, alegrias e revelam histórias. “Algumas cartas vêm com flores, outras com gliter, é muito legal perceber que a pessoa parou para escrever uma cartinha. Todas elas são lidas”, frisa.
Em diversas publicações, a editora reserva um espaço para que os leitores se correspondam entre si. É publicado um perfil com dados e interesses das pessoas e além de estimular amizades, a revista pode funcionar como “cupido”. Ieda já foi cúmplice de histórias emocionantes, entre elas casamentos que resultaram de trocas de cartas. “As pessoas mandaram fotos e nós enviamos presente de casamento”, diz. “Apesar de antiga, essa característica não se perdeu com o tempo”, comemora.
Projetos incentivam a troca de correspondência
Com o objetivo de incentivar a troca de correspondência por meio de cartas, os Correios têm vários projetos em andamento. Dois deles investem no “usuário do futuro”. Ou seja, em crianças e adolescentes.
O Projeto Escola, por exemplo, leva funcionários da área comercial dos Correios até as escolas públicas e privadas para ensinar os alunos como escrever e endereçar cartas. O projeto existe há oito anos e atende especialmente alunos de 1ª à 8ª séries.
O Concurso Internacional de Cartas é destinado às crianças e adolescentes de até 14 anos. Eles são estimulados a escreverem sobre um tema, como se fosse uma redação, mas em formato de carta. As melhores concorrem a prêmios.
Já o Projeto Escreve Carta é direcionada às pessoas que não sabem escrever. Por meio de um convênio com o Poupatempo - programa do governo Estadual - estagiários ou funcionários dos Correios auxiliam pessoas que querem escrever cartas a amigos ou parentes.
Por enquanto, esse projeto funciona apenas em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto. Mas a empresa tem planos de estendê-lo a todas as suas agências.