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'2005 será de relativa paz econômica'

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de dez anos de altos e baixos na economia mundial, 2005 pode se consolidar como um ano de relativa paz e tranqüilidade. Essa é a expectativa de um dos mais requisitados especialistas em câmbio e comércio exterior Emilio Garofalo Filho, ex-diretor das Áreas Externa do Banco Central e Internacional do Banco do Brasil.

Bem-humorado e altamente didático em suas explanações, ele destaca que, depois de um cenário financeiro internacional repleto de crises, intercaladas, com períodos mais amenos, 2005 aponta para mais uma época boa e calma na economia mundial. “Oxalá o seja! Raramente na história ocorre um círculo virtuoso tão longo”, destaca.

Garofalo Filho nasceu em Bernardino de Campos (110 quilômetros de Bauru) e passou a infância e adolescência em Ipaussu (100 quilômetros de Bauru). Formado em economia, com extensão em administração de comércio exterior, entrou no BC depois de prestar concurso e, lá, atingiu o cargo de Diretor de Área Externa, no qual ficou de 1992 até 2003.

Nesta entrevista ao Jornal da Cidade, ele fala sobre a hegemonia americana no mercado externo, a desvalorização do dólar, o euro e a alta taxas de juros do Brasil. Confira os principais trechos:

Jornal da Cidade - Até hoje, a moeda americana é a âncora da economia mundial. Como começou essa situação e por que os Estados Unidos conquistaram esse domínio? Emilio Garofalo Filho - Os ingleses são famosos (entre outras coisas) pelos seus fabulosos gramados. E o seu segredo é muito simples: basta plantar a grama e cuidar bem dela por alguns séculos. Pois é, os americanos têm cuidado de sua moeda por quase dois séculos (lição que o Brasil parece estar começando a aprender após o real) dando-lhe credibilidade, estabilidade e controle. Claro que foram extremamente beneficiados na Conferência de Bretton Woods, em 1944, nos estertores da Segunda Guerra, quando o mundo, no objetivo de “recriar” ou refazer o sistema financeiro internacional, optou por um modelo de taxas de câmbio fixas das diversas moedas em relação ao dólar dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, estabeleceu uma paridade fixa entre o dólar e o ouro, modelo só rompido definitivamente no governo Nixon. Essa conquista, resultado de um embate técnico e político principalmente entre americanos e ingleses (que defendiam a adoção de uma moeda única chamada bancor), elevou o prestígio do dólar acima da até então poderosíssima libra esterlina. Esse poderio só agora começa a encontrar um competidor vigoroso - mas ainda novato - o euro.

JC - Até que ponto esta nova moeda abalou a economia norte-americana e mundial? Garofalo Filho - Quando a moeda de um país está boa, sinaliza a boa “saúde” daquele país. O euro, apesar de novo, é resultante de 11 boas moedas que, ao se juntarem em um programa comunitário, aumentaram ainda mais os compromissos dos governantes de manter a “saúde” dos respectivos países. Certamente é bom para os Estados Unidos e para o mundo que aumente o número de países estabilizados, fortes, com comportamento equilibrado nas relações internacionais. Por um lado, países como o Brasil ganharam com o euro uma boa opção para manter suas reservas, reduzindo sua tradicional concentração em dólares e títulos do Tesouro americano; por outro lado, os americanos, interessadíssimos em reduzir seu déficit comercial, ganham novos potenciais consumidores. Hoje, por exemplo, há mais europeus visitando os Estados Unidos (e gastando) do que americanos na Europa.

JC - O dólar vem passando por um período de desvalorização em todo o mundo. O senhor acredita que essa seja uma ação consciente dos Estados Unidos? Garofalo Filho - Claramente há um desejo dos Estados Unidos na desvalorização de sua moeda (coisa que o Brasil precisa também fazer urgentemente), expresso na redução de juros que, ao atingir a casa de 1% no ano passado, configurou a taxa básica mais baixa da história do País pós- Segunda Guerra. Com isso, os Estados Unidos aumentam a competitividade de seus produtos, estimulam o turismo receptivo e, dada a imensa credibilidade do dólar, continuam não tendo qualquer dificuldade em financiar a dívida pública. Mesmo assim, fecharam o ano de 2004 com um déficit comercial histórico, superior a US$ 400 bilhões.

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