Quem entra pela primeira vez no Centro de Ressocialização de Jaú logo percebe o toque feminino da direção do presídio. Jardim com muitas rosas e flores, vasos na entrada da unidade e quadros de vários motivos. Na entrada da sala da diretoria, imagens de anjos, santos e vasos de flores ‘guiam’ a diretora pelo caminho justo.
A psicóloga Maria de Lourdes Kerche do Amaral, 46 anos, ocupa uma mesa e uma cadeira no centro da sala que fica com as portas abertas, mesmo tendo 210 homens que infringiram a lei vivendo num espaço sem grades. Liberdade privada não é sinônimo de falta de respeito para a diretora que prima pelo tratamento humanizado.
Kerche, como é chamada, diz que joga limpo com os detentos. “Quando eles chegam aqui eu ‘rezo’ o sermão inicial. Eu digo que não fui em quem os prendi e nem sou eu quem vai soltá-los. Eu apenas sou responsável pela custódia deles. Proponho que a gente se trate com respeito e ressalto que a honestidade será a chave do nosso relacionamento.”
Ela diz ao detento que vai procurar ajudá-lo, mas que não admite que eles brinquem com coisas sérias. “Se eles agirem de maneira inadequada eu vou perceber, mais cedo ou mais tarde, a situação muda de figura. Tenho o poder de transferi-lo.”
Na opinião dela, o CR tem muitos diferenciais em relação as penitenciárias. “Aqui eles vivem soltos dentro de um espaço. A disciplina fica complicada para quem chega de outros presídios. Aqui, nós partimos do princípio que pode tudo, mas se houver excessos, eles vão perder alguns ‘privilégios’.
Um dos diferenciais é a revista das visitas. “Aqui as visitas não são revistadas, Porém, próximo ao Natal de 2004, uma visita entrou com entorpecente. A festa natalina deles foi cortada, nunca mais tivemos esse tipo de problema. O preso que iria receber a droga foi transferido. Aqui, só ficam aqueles que querem ficar e nós trabalhamos para que eles retornem a sociedade recuperados.”
Administrando conflitos
Administrar os conflitos dentro do CR não é tarefa apenas da diretoria, frisa Kerche. “Toda vez que temos um problema, nós nos reunimos na quadra e conversamos. A primeira pergunta que faço é; como vocês resolveriam esse problema se estivessem no meu lugar?. Isso faz com que eles exercitem a capacidade de lidar com os conflitos e de tomar decisões.”
Ela explica que pela experiência, já foi psicóloga da Penitenciária 2 de Bauru e diretora do CR de Lins, as pessoas que cometem algum delito, normalmente são aquelas que foram privadas de algumas, ou de muitas coisas. “Emocionalmente ou intelectualmente. Se este é o ponto fraco, a gente tem o dever de atuar.”
A decisão do conflito é acatada por todos. “Eles ajudam a decidir então, têm que cumprir. Nós temos um regimento interno que eles têm obrigação de ler logo que chegam e para cada infração, há uma punição. Se o caso for grave, eles são transferidos, ou seja, retornam para as penitenciárias, onde ficam nas grades.”
Pequenos problemas são solucionados rapidamente com toda a rigidez da diretora. “Eu sou rígida. Quando um ou mais presos brigam eu não separo. Coloco-os juntos e deixo-os por um tempo. Eles têm que resolver o problema e pedir desculpas um para o outro. Claro, que a gente fica observando o comportamento deles, até que superem a crise.”
As desobediências não passam em branco. “Os detentos que trabalham na cozinha tentaram fazer um doce de leite. Pegaram leite e açúcar e fizeram, sem ordem da direção. Eu descobri e fiz com que o grupo de presos comessem todo o doce. Eles reclamaram, porque estava duro, mas fiz eles ingerirem tudo.”
Num outro caso, lembra Kerche, o suco servido na hora da refeição foi suspenso por uma semana. “Eu descobri que eles estavam levando suco para os alojamentos e suspendi o suco das refeições.”
Hoje é dia de visita
As visitas no CR de Jaú acontecem no domingo. Os presos casados ou com companheiras fixas têm o direito de ocupar uma barraca de camping para atos íntimos. Mas, antes da visitar chegar, segundo a diretoria, os detentos trabalham muito. “Eu digo que vamos receber visitas e que a casa tem que estar limpa e bem arrumada.”
Os sentenciados acolhem a orientação e fazem o melhor possível. “É a família deles que vai ser recebida.”
Perfil
Os sentenciados que cumprem pena no CR de Jaú são escolhidos pela equipe multidisciplinar da unidade, explica Maria Kerche. “Nós vamos nas cadeias e depois de uma breve entrevista escolhemos aqueles que se encaixam no perfil. A maioria são jovens entre 20 e 25 anos que cometeram crimes, mas que não têm vínculo com a família e não têm índole criminosa acentuada.”
São 220 presos que estão recolhidos no CR de Jaú. A capacidade padrão é de 210. Dentre eles há os que cometeram todo tipo de delito. “Aqui não tem integrante de facção ou preso com índole violenta acentuada.”