Com quase 4 anos, Rebeca Heloísa Pereira, matriculada no jardim 1 da Creche-Berçário Nova Esperança, iniciou o ano letivo de 2005 na segunda-feira, mas no horário previsto para ter aula, ela brinca e assiste TV. Isso porque os quatro professores que lecionavam na instituição foram convocados para voltar para as escolas da Secretaria Municipal de Educação. E a entidade ainda não contratou novos profissionais.
Na mesma situação de Rebeca, o JC apurou que estão as crianças das creches Monteiro Lobato e Leocádio Correia, que integram a lista das 35 conveniadas com o município. Em contrapartida pela retirada dos professores, para cobrir a defasagem no quadro docente das escolas municipais, a prefeitura prometeu repassar às entidades verba para que elas próprias contratem os profissionais.
Porém, Nélson Bastos, diretor da Creche Nova Esperança, explica que a diretoria não contratou professores para os cargos vagos porque ainda não está definido o valor e a data para repasse da verba para pagar os profissionais. “Além disso, a creche não está preparada para contratar professor. Não tem departamento pedagógico, de planejamento”, frisa.
Ele é contrário à mudança feita pela Secretaria de Educação. “Estava funcionando bem. Agora, puxaram o cobertor de um lado e descobriram do outro. Só que puxaram o coberto do pobre”, critica afirmando que irá recorrer à Promotoria da Infância e Juventude se a prefeitura não devolver os professores à entidade que atende 99 crianças no maternal, jardim 1 e 2 e pré-escola.
A mãe de Rebeca, a serviços gerais Rosângela Cristina Pereira, reclama que a filha está perdendo dias do ano letivo. “Ela está sendo prejudicada sim. Além de creche, lá é uma escola. Minha filha já conhece algumas letras e agora fica sem atividades pedagógicas”, frisa.
Para ela, tanto faz se o professor é contratado pela prefeitura ou pela entidade. O que importa é ele ser capacitado e estar em sala de aula. “No meio desta quebra-de-braço, ficam as crianças, que estão sendo prejudicadas”, completa.
Sílvia Renata da Silva, coordenadora da Creche Monteiro Lobato, conta que a entidade está esperando o repasse da prefeitura para contratar professores para as quatro vagas abertas. “Mas ainda esperamos reverter esta mudança. O professor da Secretaria de Educação é qualificado, tem uma continuidade no planejamento”, ressalta.
Por enquanto, ao invés de aula, as 140 crianças estão participando de atividades recreativas preparadas pelas funcionárias. “A nossa sorte é que as nossas funcionárias são professoras ou estão cursando pedagogia”, conta.
A Creche-Berçário Leocádio Correia, que atende 110 crianças, das quais 64 em idade de educação infantil, também está sem professor. “Estamos só com atividades recreativas. Temos medo de assumir a responsabilidade da contratação de professores. Além disso, a creche não tem estrutura para assumir a educação sozinha. Precisa de suporte pedagógico que a Secretaria de Educação tem”, diz.
A Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social reuniu-se ontem com o chefe de Gabinete da prefeitura, Paulo Sérgio Canalli, para discutir a mudança relativa aos professores e somente hoje deve emitir um posicionamento sobre o assunto.
Entidade aprova novo modelo
Já na Creche-Berçário Rodrigues de Abreu, que atende 268 crianças em suas duas unidades (Centro e Redentor), as aulas estão sendo dadas regularmente. “Fizemos uma seleção entre os cerca de 35 currículos que nos chegaram e contratamos cinco professoras para repor as que saíram. A contratação é em caráter de experiência, até o final do mês. Esperamos receber o dinheiro da prefeitura para fazer a contratação definitiva”, conta Lúcia Reis Pereira de Araújo, presidente da entidade.
Para ela, a mudança não deve causar problemas. “Foi proposta uma troca. Ao invés de professores da Secretaria de Educação, teremos nossos professores e poderemos cobrar deles produção. Se algum não der certo, podemos trocá-lo. Não acredito que haja perdas”, diz.
Sinserm critica alteração sem prévio agendamento
O Sindicato dos Servidores Municipais de Bauru (Sinserm) informa que não há fundamentação legal para impedir que a Secretaria de Educação retome os professores que estavam atuando nas creches e entidades conveniadas com a prefeitura. Mas Idelma Corral, diretora do sindicato, critica a administração Nilson Costa por não ter programado a mudança.
“Rechaçamos a administração Nilson Costa, que sabia que iria faltar professores nas escolas municipais e não se organizou para contratar mais professores para suprir o quadro ou fazer a mudança com mais tempo”, frisa.
Para atender os professores que procuraram o Sinserm reclamando da mudança, o sindicato enviou um ofício à Secretaria de Educação pedindo que a mudança fosse feita de forma a causar o menor transtorno possível à vida profissional e pessoal dos funcionários.