Poucos filmes provocam reações tão extremadas a ponto de o público se dividir entre o “Um dos melhores filmes que já vi” ou “Odiei profundamente”. Normalmente, quando isso ocorre, pode-se ter certeza de que são essas as produções que têm algo a dizer, em meio a um mar de blockbusters, comédias românticas, super-heróis e cenas de batalhas.
E esse é justamente o caso de “Closer – Perto Demais”, que está em cartaz nos cinemas de Bauru até o dia 24 de fevereiro. O filme, adulto, maduro e inteligente, é baseado na peça do dramaturgo inglês Patrick Marber e dirigido por Mike Nichols (“A Primeira Noite de um Homem”, “Angels in America”), hábil para conduzir diálogos intensos e tramas de relacionamentos.
No filme, Anna (Julia Roberts), Dan (Jude Law), Larry (Clive Owen) e Alice (Natalie Portman) se envolvem em momentos de amor, traições, separações e mentiras, até perceberem que nos relacionamentos, quando as verdades estão na mesa, não há como voltar atrás.
Assim como na peça, o filme ganha intensidade a cada encontro dos personagens, apresentados ao público apenas em momentos de interação uns com os outros. Durante a trama, não há cenas solitárias, não há flashbacks. Importa apenas o que cada um revela ao outro, e não seu passado, sua família, suas histórias. E cada um dos quatro – não há sequer necessidade de coadjuvantes – revela os reflexos de realidade, as certezas e dúvidas de um relacionamento real, adulto e urbano.
Nos momentos de sedução, como nos primeiros encontros de Alice e Dan e de Larry e Anna, o texto parece correr leve, com os atores seguros e soltos em seus papéis – habilidade de Nichols, que conseguiu tirar até mesmo de Julia Roberts uma boa interpretação.
Já nas cenas de conflitos, os diálogos são vigorosos, com discussões estrondosas – mas em nenhum momento constrangedoras. É ali que os personagens revelam claramente sua sinceridade e também suas hipocrisias, o porquê do investimento nos relacionamentos, as diferenças entre homens e mulheres e os motivos que nos fazem superar dificuldades ou dobrar-nos ao receber um golpe certeiro.
Não há qualquer elemento no filme que não remonte à realidade de um casal nos dias atuais – nem mesmo os palavrões e discussões sobre o sexo em si, presentes em diversos momentos da trama. Assim como na vida, também não há heróis ou vilões. Todos são passíveis de decisões erradas, e como diz Alice em uma das cenas, sempre há um momento em que ainda se pode decidir por voltar atrás.
Alice, por sinal, forma com Larry a dupla dos personagens fortes e que crescem ao longo do filme, enquanto Dan e Anna, fortes inicialmente, deixam-se carregar pelas decisões, erros, depressão e falta de ânimo para conceber seu próprio crescimento.
Desde os primeiros acordes de “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice, linda música que abre e fecha “Perto Demais”, o filme é de Alice. Fica a indignação pela indicação de Natalie Portman e também de Clive Owen apenas como atores coadjuvantes no Oscar, após terem sido premiados no Globo de Ouro. Os nomes de Julia Roberts e de Jude Law – que não concorrem a nada - provavelmente pesaram para a indicação, e ainda pela certeza de que será mais fácil – e merecida - a vitória.