“Antigamente, quem morava na roça, não se importava com fatores de segurança no trabalho, no lar ou no lazer, coisa normal há 50 anos.
Meus irmãos, ainda adolescentes naquela época, saíam para pescar ou caçar, longe ou perto, sem que meu pai se preocupasse.
Eu mesmo comecei a lidar com armas de fogo antes dos dez anos de idade e saía pelos pastos e invernadas para caçar nhambus e codornas sem que ninguém desse o contra e passar uma noite no mato era como dormir em hotel e tomar chuva no caminho da escola ou na roça era refresco, principalmente para meus irmãos mais velhos.
Mas eles trabalhavam no cafezal do sítio e eu, que era o mais novo, ainda não trabalhava, então recebi a incumbência de levar de volta um velho e pesado bote de madeira, desde a Fazenda das Palmeiras, subindo pelo rio Batalha, até ao ponto de partida da próxima caçada já agendada, acima da via marechal Rondon, perto de Avaí.
Para mim, aquilo era motivo de orgulho e significava que eu já estava me tornando um homenzinho e convidei para aquela empreitada perigosa, o meu amigo e vizinho de sítio, Marinho Figueiredo, e o finado Juvenil, que era um agregado da nossa propriedade.
O sol despontava entre os galhos da mata ciliar do Batalha e nós já estávamos à sua margem prontos para inicar aquela jornada, que para um homem experiente levaria um dia inteiro mas, para nós três ainda não sabíamos.
Estávamos acompanhados de um cachorro mestiço americano com vira-lata que era surdo e para que o mesmo não tomasse rumo errado, eu decidi acompanhá-lo até a um ponto mais acima, onde reencontraria os outros dois já com a canoa.
Mas o bendito cachorro começou a correr atrás do gado daquela fazenda, eu corria atrás do cachorro e perdi o ponto de referência do lugar, entrei num pântano formado pela barra da Água das Pedras, onde me perdi e demorei cerca de uma hora para achar os meus companheiros.
O rio estava barrento, ficava cada vez mais cheio, fazendo com que o varejão de bambu mal tocasse ao fundo, em alguns pontos, dificultando sobremaneira a nossa subida.
Enquanto isso, lá na minha casa, quando o sol escureceu atrás do mato, a minha mãe começou a perder a paciência com a nossa demora e dizia a todo tempo para o meu pai:
- Acho que você deve ir procurá-los.
- Mas procurar onde, criatura. Eu nem sei em que ponto do rio eles estão.
- Então vá ao encontro deles rio abaixo com o outro bote, teimou ela.
- Está muito escuro, me deixe dormir. Se eles não chegarem até amanhã à tarde eu vou procurá-los.
Mas nós não conseguimos chegar ao ponto pré-determinado devido a nossa pouca força e falta de experiência, então amarramos a nossa embarcação numa árvore e saímos dali varando a mata ciliar, cercas de arame, pastos e ganhamos finalmente a via Rondon, quando ouvimos minha mãe que conversava com meu pai vindo ao nosso encontro já bem longe do sítio, e ela falava assim:
- Boa coisa não deve ter acontecido, pois o Marinho Figueiredo é um louco, o Juvenil é um doido-varrido e o Eurico é um tonto...
Quando nós nos encontramos, eu tentei acalmá-la dizendo que o motivo da nossa demora era o fato de eu ter me perdido durante uma hora no banhado da Águas das Pedras, mas a observação feita pelo meu pai a deixou ainda mais brava:
- Aquele banhado é chamado pelos moradores da Fazenda das Palmeiras de canteiro de sucuris, devido à quantidade de cobras que moram ali."
Eurico de Oliveira, aposentado, pescador e contador de histórias.