Esportes

Situação do BAC entristece ex-jogadores

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Se dependesse de uma linha defensiva formada por Sorocaba no gol, com Crenite e Gino Bacci na zaga, nenhum adversário se aventuraria a humilhar o voluntarioso Bauru Atlético Clube (BAC) nos idos das décadas de 40 e 50, época em que o clube bauruense tinha fôlego de sobra para medir forças com um adversário local - o Noroeste -, o que lhe garantiria condições de lançar para o mundo, em 1954, o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé.

Mais de meio século depois, Caetano Martins Filho, o Sorocaba, 77 anos, Geraldo Crenite, 74 anos, e Gino Bacci, 84 anos, se reuniram ontem na sede do clube para ver de perto, atônitos, os estragos feitos por um adversário mais cruel e implacável que um atacante como Pelé: a crise financeira. Não resistiram à tristeza de constatar a que ponto chegou o clube que defenderam com tanta raça.

Há menos de um mês, o JC revelou que o BAC, afundado em dívidas que superam R$ 1 milhão e abandonado pelos poucos sócios que ainda pagavam mensalidades, fechou suas portas e deixou seu patrimônio à mercê da degradação.

O presidente do Conselho Deliberativo do BAC, Gerson Cardoso, disse ontem que só voltará a se manifestar sobre a situação do clube quando for confirmado o nome do advogado Paulo Afonso Marmo Leite como assessor jurídico dos dirigentes que tentarão apontar soluções para a crise. Ele diz, porém, que a indicação de Leite precisará ser aprovada pelos outros integrantes do conselho.

Cardoso adiantou apenas que o Conselho Deliberativo planeja montar uma comissão formada por conselheiros e sócios que pagavam suas mensalidades até o final do ano passado, órgão que terá a função de auxiliar os diretores no trabalho de recuperação do clube. No mês passado, Cardoso garantiu à reportagem que este trabalho será conduzido “com transparência”.

Tristeza

O encontro de ontem foi motivado pela visita de Martins Filho, o Sorocaba, que deixou Bauru ainda na década de 50 para morar na cidade que lhe emprestou o apelido. O ex-goleiro, que iniciou a carreira no XV de Piracicaba, defendeu o BAC em 1952 e jogou por 25 anos no Tupã, disse que ficou “muito triste” ao tomar conhecimento, através da imprensa, da situação a que chegou o clube. “Nunca poderia ter acontecido isso. O BAC é como se fosse uma relíquia”, diz Martins Filho.

No gramado do clube, atualmente abandonado, mas onde na década de 50 “suou a camisa” defendendo as cores do BAC, Sorocaba troca a tristeza pela indignação. “A única saída é o poder público tomar conta deste patrimônio para promover o esporte para crianças carentes da cidade”, diz, acrescentando que “o prefeito e os vereadores precisam entrar nesta história”.

O ex-zagueiro Geraldo Crenite, que também teve passagens pelo Vasco da Gama, Guarani e Botafogo de Ribeirão Preto, prefere adotar o saudosismo para expressar sua tristeza. Morador em Bauru, ele relembra com nostalgia das homenagens anuais que o clube prestava a seus veteranos.

“Até pouco tempo atrás, com o clube ainda em atividade, participei de uma homenagem e parecia que tudo ia bem”, disse Crenite, sem saber precisar quando isso aconteceu pela última vez. “Sabendo o que foi o BAC e ver como está hoje dá uma dor enorme no coração. É uma judiação”, diz.

O também ex-zagueiro Gino Bacci, que defendeu o BAC ainda na década de 40, diz que sempre foi um freqüentador assíduo do clube, mesmo depois de abandonar a carreira, chegando inclusive a participar de algumas diretorias. “É uma situação desagradável de assistir, pois o BAC sempre foi um clube muito bem freqüentado”, atesta.

Com base na sua experiência administrativa, Bacci credita a atual situação a um “movimento de diminuição do número de acionistas”, numa referência aos sócios-proprietários. Com isso, completa, diminuiu também o número de “verdadeiros aficionados” pelo clube.

MP fora do caso

O promotor da Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene, disse ontem que o Ministério Público (MP) não tem condições legais de intervir na questão dos problemas que levaram o Bauru Atlético Clube (BAC) a fechar suas portas por conta da crise financeira.

No último dia 28, a organização não-governamental (ONG) “Fórum de Discussões de Bauru” protocolou uma representação para que o MP investigasse as causas da crise.

Segundo Helene, o MP não tem condições legais de atuar neste caso porque, enquanto associação, o BAC, tecnicamente, ainda possui proprietários.

“Não é um erário público e a lei não permite ao MP entrar em uma sociedade particular”, explica, ressaltando que a entidade autora da representação já foi notificada sobre esta decisão.

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