Thaís da Silveira
Movimentada, a noite bauruense é cheia de altos e baixos. Se alguns bares e boates fecham as portas, logo surgem novas opções para todos os gostos. Ou melhor, para quase todos os gostos. O público homossexual, por exemplo, reclama das poucas alternativas que a cidade oferece para gays que não querem ser o alvo das atenções e buscam curtir as baladas com tranqüilidade.
Há dois estabelecimentos em Bauru que são declaradamente destinados ao público homossexual – a boate Comossomos e o bar Safari beer, ambos localizados na região central. Diferentemente da Capital, não há sequer cafés e salas de cinema para o público de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS).
“Bauru deixa a desejar muito até pelo porte da cidade e localização regional. Quem não quer se expor aqui, vai para os grandes centros. Em Bauru, fica o homossexual acomodado e resolvido ou aquele que não tem condições de sair”, avalia o psicólogo Ricardo Mokdici, homossexual.
Ele afirma que muitos homossexuais não freqüentam a Comossomos ou o Safari por falta de identificação com o lugar ou com o som. As alternativas, neste caso, são ficar em casa, ir a festas reservadas ou freqüentar o que eles chamam de bares “hetero”.
“É bem grande a quantidade de pessoas que não freqüenta a boate gay e o bar porque não gosta das opções existentes. Com certeza”, completa o psicólogo.
Ricardo costuma organizar festas para o público homossexual, como forma de amenizar a falta de alternativas. “Eu dei uma parada, agora, para não tirar o público da boate”, justifica.
O funcionário público Fábio (nome fictício), 38 anos, concorda com Ricardo. “Na verdade, pelo porte da cidade de Bauru, ainda faltam espaços. Não temos points culturais e de turismo. Gay não vive só de festa. Bauru está muito fora da realidade”, critica.
Dado o cenário local, Roberto afirma que busca festas na casa de amigos ou acaba freqüentando qualquer bar da cidade. “A gente freqüenta tudo. Basta ser discreto”, destaca.
Muitos homossexuais, principalmente mulheres, acabam “adotando” bares ou botecos espalhados pela cidade, onde sentem-se mais à vontade. “Não são bares assumidamente de gays, mas elas freqüentam”, diz o psicólogo Ricardo.
É o caso do Bar Imprensa. “Lá é um espaço aberto para todo mundo. A partir do momento em que colocamos a Nanda Vieira, que faz parte do grupo GLS, para tocar às sextas-feiras, o pessoal (homossexual) começou a ir. Eles freqüentam normalmente, há uns seis meses”, diz Ana Maria Balieiro Wernek, proprietária do bar.
Ela acredita que o público GLS acaba retornando ao estabelecimento porque percebe que não há discriminação. “Do mesmo jeito que tem um casal numa mesa, na outra tem duas meninas. Abrimos para qualquer público, desde que respeitem o ambiente”, expõe.
“Eles fazem comentários sobre a falta de locais para freqüentar e dizem que nunca foram tão bem recebidos”, acrescenta.
Na opinião da cantora Nanda Vieira, o público GLS não precisa se fechar em guetos ou locais próprios para gays.
'Todos os lugares deveriam ser de todos'
Na opinião de alguns homossexuais, não há necessidade de procurar apenas estabelecimentos direcionados ao público gay para curtir a noite. “Realmente faltam espaços GLS, mas eu acho que todos os lugares deveriam ser de todos”, diz o jornalista João (nome fictício), 24 anos, homossexual.
“Por causa do preconceito que a gente sofre, é preciso criar locais para o homossexual ficar confinado e poder se expressar lá dentro. Por que um casal hetero pode se beijar em um bar e um casal gay não pode?”, questiona.
João afirma que enjoou das duas únicas opções de casas noturnas GLS de Bauru. “Nem todo gay é obrigado a gostar do mesmo tipo de som. Eu freqüento pouco a boate gay porque acabei enjoando”, diz.
Ele explica que muitas vezes, entretanto, é constrangedor freqüentar um bar “hetero” por atrair a atenção das pessoas. “Tem casais gays que freqüentam locais hetero, mas têm de adotar outro tipo de conduta. Eles não podem fazer carinhos ou se beijar porque todos ficam olhando. Eu posso paquerar sem problemas, mas não posso beijar”, explica.
A cantora Nanda Vieira, homossexual, concorda. “Eu acho que o público GLS não precisa ficar se fechando em guetos, como boates GLS, ou locais escondidos. As pessoas podem freqüentar locais comuns, mas têm receio”, constata.
Ela cita o Bar Imprensa, que é freqüentado por casais de mulheres homossexuais. “Todo mundo que vai lá se sente à vontade. Só não precisa ficar esfregando na cara de ninguém a sua opção”, enfatiza.