Cultura

Artigo: O samba do crioulo doido...

Rosa Bertoldi
| Tempo de leitura: 3 min

Construção lembra modernidade. Desconstrução lembra pós-modernidade. Quando se fala de arte/decoração/arquitetura, o termo empregado para essas manifestações é moderno. Da música, diz-se contemporânea. Longe de ser popular, ela atinge um público restrito.

Em minha última visita a São Paulo, entre Bienal e Neurópolis, escolhi a segunda opção sem pestanejar. Afinal, considero-me de vanguarda. A ópera urbana Neurópolis é o mais recente trabalho de Tragtenberg. O artista foi contratado para criar uma homenagem à cidade e apresentou na Galeria Olido uma orquestra original. Convidei uma amiga para o sarau. Freqüentadora assídua de bons espetáculos na Paulicéia, ela foi logo avisando com um certo desdém: vanguardista, ouvi dizer que o sujeito é muito esquisito.

A música contemporânea utiliza várias técnicas estruturais, linguagem modal, serial, aleatória, politonal, atonal, estridências, ruídos, sistemas de notação não convencionais e de crescente caráter gráfico. Hoje, esses músicos usam até computador e outros aparelhos eletroacústicos. É muito esquisito mesmo.

Como convidadas, nossas cadeiras tinham uma posição privilegiada, mas tanto minha filha quanto minha amiga Lenita abriram mão de nossos lugares numerados para ficarmos na última fileira, imaginando que, se o negócio fosse realmente muito estranho, sairíamos despercebidas. Quando o palco foi iluminado, levei um susto. À direita, estavam sentadas duas japonesas com roupa e instrumentos típicos, um deles parecendo um tear na horizontal. Em pé, ao lado delas, um clone de Carlinhos Brown e um berimbau. Percebi que havia dois repentistas e dois violeiros paraguaios. Todos em traje a rigor, alguns até parecendo absolutamente normais, menos o regente, que vestia uma calça de brim e camisa de algodão, criando um contraste... Esquisito? Minha filha apontou para um velhinho negro e comentou: aquele senhor toca cavaquinho em frente ao Teatro Municipal.

A orquestra formada por músicos que tocam em feiras livres, nas ruas, portas de igrejas, praças, estações de trem, metrô, e de diferentes comunidades de imigrantes com suas melodias tradicionais e instrumentos típicos foi o ponto de partida para a criação de Livio Tragtenberg e Fábio Tagliaferri. Imaginem berimbau, acordeom, harpa, violão, cavaquinho, flauta e violino misturados a diversos instrumentos que eu desconheço. Por incrível que pareça, a mistura de gêneros musicais funcionou, conforme proposto. A sinfonia urbana era um diminuto espelho da miscigenada São Paulo.

O espetáculo começou e eu vibrei, pois à medida em que o ouvido se abre, a percepção ganha em acuidade e diferentes graus de audição se desenvolvem. Em nossa sociedade saturada de sons, o prazer de uma verdadeira descoberta musical torna-se maravilhosa, porque cada vez mais rara. “Amo o que nunca existiu”, clamava o pintor francês simbolista Odilon Redon, convidando-nos a continuar explorando os caminhos da descoberta.

A pós-modernidade caminha na contra-mão do modismo. Ser contemporâneo é inserir-se plenamente na época em que se vive - tarefa da qual não se pode escapar - e, ao mesmo tempo, liberta-se de códigos e convenções. Tragtenberg, ao quebrar a hierarquia entre a música culta e a popular, não só mostrou o grau de seu vanguardismo como abriu caminho para a revitalização da música em geral. Em tempo: minha amiga aplaudiu de pé.

*A autora, colaboradora de Ju Machado escritório de arte, assina-se com o pseudônimo de Rosa Bertoldi.

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