Luiz Inácio Lula da Silva chega à metade de seu mandato presidencial vivendo um caos na área social. Até os seus mais antigos seguidores o recriminam por não ter colocado em prática os programas sociais que prometiam mudar a vida de cada brasileiro carente. Parte da imprensa, sempre dócil aos interesses do capital, aplaude sem discutir. O governo se baseia nessa imprensa para divulgar que está no caminho correto, e que os resultados são sua melhor prova. Os críticos contundentes de alguns movimentos sociais historicamente aliados ao PT, como o dos Sem-Terra (MST) e a Comissão Pastoral da Terra, insistem na pergunta: de que valem bons números na área econômica se a catastrófica situação social não melhorou?
As transformações sociais anunciadas com estardalhaço por Lula e sua equipe não ocorreram. Ao contrário : a ineficácia administrativa do governo fez que em vários campos se registrasse um claro retrocesso, mal disfarçado por uma agressiva política de marketing. O mais expressivo talvez seja o que ocorre na reforma agrária, histórica bandeira de luta da esquerda brasileira. Em seus dois primeiros anos, Lula não cumpriu nem a metade do que prometeu.
Dois “papelões” servem de exemplos para ilustrar a mistura de política de marketing com a incompetência administrativa do governo Lula. Primeiro: para divulgar um programa de apoio à agricultura familiar, uma campanha pela televisão mostrou agricultores de uma cidade próxima a São Paulo entre pujantes hortas de alfaces, tomates e abóboras. Depois de citar números, o locutor anunciava solene : “Isto é um fato. Esta é a verdade”. Nem uma coisa nem outra. Os números correspondiam aos recursos previstos pelo orçamento elaborado pelo governo anterior, e o anúncio exibia cenas filmadas em uma propriedade particular, cujo dono se apressou a denunciar a farsa.
O segundo exemplo é ainda mais inusitado. Quando foi anunciado o badalado programa Fome Zero, muitos correram para fazer doações. A top model Giselle Bundchen, por exemplo, anunciou a entrega de um cheque de R$ 50 mil. Quatro meses depois, seu representante informou que o cheque ainda não tinha sido descontado. A explicação do escritor Frei Betto, principal assessor de Lula no Fome Zero, foi que o programa não tinha uma conta bancária para depositar esse cheque ou qualquer outro. O papelão não demorou a chegar. Havia uma conta e Frei Betto não sabia. Um ano e meio depois da implementação do Fome Zero, o programa acumula um grande número de denúncias de desvios, corrupção e ineficácia. Frei Betto foi um dos mais próximos amigos de Lula que mais cedo abandonaram o barco. Junto com ele, mais de uma dúzia de históricos companheiros de viagem optaram por voltar para casa.
Além da questão social, o governo Lula está vivendo ainda entre dois extremos. De um lado, o setor produtivo, que ainda queixa-se das astronômicas taxas de juros e da pesada carga tributária aplicadas pelo governo. De outro, aplausos eufóricos dos bancos e investidores. Nunca, desde a metade do século passado, os bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil quanto no governo do ex-dirigente sindical que comandou greves históricas entre os anos 70 e 80. A verdade é que o setor especulativo está ganhando. O produtivo, não. Diante deste cenário, o que muitos se perguntam no Brasil é: se toda a mudança é o que está aí, por que foi eleito Lula e não o então candidato do PSDB, José Serra? (O autor, Pedro Tobias, é deputado estadual e vice-líder do governo na Assembléia Legislativa de São Paulo)