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Agricultura ameaçada


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O setor agrícola, mais uma vez, é a vítima preferencial da grande valorização do real produzida pelas altíssimas taxas de juros que o Banco Central considera necessárias para combater a inflação. A recuperação da agricultura, da mesma forma que o impulso dado às exportações, vem acontecendo desde a desvalorização do real em janeiro de 1999 que sepultou a abstrusa política cambial do primeiro mandato de FHC e também graças ao programa do Moderfrota que financiou a renovação do maquinário agrícola.

O País colheu três boas safras de grãos e vem obtendo extraordinários ga-nhos de produtividade em função dos investimentos na pesquisa agrícola e no desenvolvimento da pecuária. E as exportações puderam se expandir rapidamente apoiadas na produção agropecuária. Mas voltam a formar-se nuvens negras sobre o setor: a recomposição da renda dos produtores rurais que vinha se processando lentamente em razão desses resultados está em vias de ser interrompida, já na comercialização da atual safra de verão, cuja colheita está começando.

O que acontece é que a valorização do real e a elevação dos juros vem permitindo toda a sorte de arbitragens em relação ao dólar. Estamos envolvidos num verdadeiro processo de especulação com o dólar, estimulado pelo grande diferencial de juros internos e externos. Essa valorização do real em relação ao dólar pegou a agricultura no contrapé: as despesas de custeio e os investimentos no plantio da safra (que envolvem adubos, fertilizantes, produtos onerados pelos custos de importação) foram feitos quando o dólar estava muito mais alto em relação ao real (em torno de R$ 3,00/US$1,00) e a venda do produto das colheitas deve se realizar com dólar bem mais baixo (R$ 2,50/2,60).

Isso vai reduzir dramaticamente o rendimento dos produtores e inviabilizar o cumprimento dos compromissos financeiros que são normalmente assumidos durante o plantio para serem pagos com o produto da colheita. Pela primeira vez, depois de três ou quatro anos, eles vão ter queda de renda, vão enfrentar o constrangimento de caixa e entrar de novo naquele processo de dificuldades para honrar as dívidas . Não tenho dúvida: se o governo não agir, quando chegar julho/agosto que é o momento de liquidação dos compromissos, recomeça o velho problema da inadimplência que terá que ser resolvido. Todos sabem que isso termina em quebra de safra, alta de preços da alimentação, queda nas exportações, etc. Já existem sinais que os agricultores estão se retraindo, evitando gastos com novos investimentos, como demonstra a redução dos pedidos de financiamento ao Moderfrota.

Tudo isso por conta de uma política pouco inteligente que prefere trocar o crescimento econômico por metas inflacionárias desnecessariamente ambiciosas. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP)

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