Bairros

Como era verde meu vale...

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Em 1941, o diretor norte-americano John Ford contou, no tocante e sensível filme Como Era Verde Meu Vale, a desintegração de uma família de mineiros de carvão de um pequeno vilarejo do País de Gales causada pelos efeitos nocivos da crescente industrialização. Com algumas adaptações, o roteiro da premiadíssima fita, ganhadora de cinco Oscars, poderia ser aplicado a uma realidade que já começa a preocupar os ambientalistas bauruenses.

Algumas ações de recuperação e reflorestamento dos chamados fundos de vale - regiões adjacentes ao leito dos principais córregos e ribeirões - estão se perdendo por causa da intervenção irresponsável, às vezes criminosa, da própria população que poderia tirar benefícios de uma área preservada, com ganhos significativos em termos ambientais.

Mais que um local aprazível para a futura construção de parques - o que já está, inclusive, previsto no projeto inicial do Plano Diretor em elaboração -, fundos de vales preservados e limpos representam um alívio significativo para alguns flagelos que ultimamente vêm perseguindo a população, como a infestação de insetos que propagam doenças (dengue e leishmaniose) e as enchentes - o plantio de mudas nativas controla as erosões e contribui para a revegetação.

A constatação desta perda foi feita por organizações não-governamentais (ONGs) ambientalistas da cidade, como o Instituto Vidágua e o Fórum Pró-Batalha, entidades que vêm captando recursos públicos - principalmente junto ao Fundo Estadual dos Recursos Hídricos (Fehidro) - e viabilizando a recuperação de alguns fundos de vale na cidade.

Segundo uma estimativa otimista das ONGs, o trabalho “jogado fora” apenas pela intervenção humana pode chegar a 30%. Isso sem contabilizar uma perda natural (seca, formigas, vendavais) de até 10% que já é previamente admitida em ações de reflorestamento. Tudo isso somado a outros fatores, como erosões e assoreamentos, despejo de esgoto in natura e incêndios, deixam os fundos de vale de Bauru em uma situação preocupante. E cada dia menos verdes...

Mudas pisoteadas

O secretário-executivo do Instituto Ambiental Vidágua, Ivan Alexandre Ferrazoli De Marche, não tem dúvida em apontar os pequenos proprietários rurais, estabelecidos em áreas urbanas, como os principais agentes desta destruição, a partir do fato de que facilitam o acesso de seus rebanhos a áreas que já foram trabalhadas pelos ambientalistas.

Segundo De Marche, antes do plantio das mudas, as entidades responsáveis pelo reflorestamento procuram os proprietários de áreas na região a ser reflorestada para propor a criação de corredores que permitam que os rebanhos (principalmente bovino e caprino) cheguem ao córrego para beber água.

O trabalho de convencimento, porém, não é nada fácil. “Eles alegam que, por serem pequenos proprietários, a faixa legal de 30 metros de APP (Área de Preservação Permanente) em cada margem do córrego acaba tomando a maior parte da propriedade”, explica, enquanto plantava uma muda na margem do córrego Água da Forquilha, dentro do mais recente projeto desenvolvido pelo Vidágua de recuperação de mata ciliar na cidade.

Lá, os proprietários da região ainda estão receptivos à iniciativa e mantêm seus rebanhos transitando apenas nos corredores previamente reservados. “Eles (proprietários) às vezes até concordam com o projeto, mas quando a seca aperta as cercas são derrubadas e o gado acaba invadindo a área já reflorestada”, lembra o engenheiro agrônomo David Geraldo Pompei, coordenador de projetos do Fórum Pró-Batalha.

Pompei ressalta que o problema com animais é também preocupante no fundo de vale do Córrego do Barreirinho, principalmente nas proximidades da Vila Santa Luzia e dos núcleos Beija Flor, Bauru 2000 e Mary Dota. Nesta região, a reportagem constatou a presença marcante de bois e cavalos, estes últimos soltos por carroceiros para aproveitar a vegetação ribeirinha. O problema é que, enquanto pastam, os cavalos pisoteiam (ou comem) as mudas plantadas no projeto de reflorestamento que começou no final de 2003.

Entulho e fogo

Mas não são só os animais que causam perdas em áreas reflorestadas. Segundo De Marche, a deposição de entulho, de lixo e até incêndios acabam afetando o trabalho desenvolvido nos fundos de vale já trabalhados. “Principalmente na periferia, o acúmulo de entulho é bastante significativo, numa ação promovida pela própria população local e também por empresas de caçambas”, atesta, lembrando que este material acaba carreado para os rios em época de chuvas mais intensas, contribuindo com o assoreamento do leito.

Incêndios também não são raros e promovem estragos consideráveis. Em alguns casos, a própria população da região ateia fogo no capim (e, por conseqüência, nas mudas plantadas) sob a alegação de evitar a proliferação de insetos. De Marche lembra que esse descontrole ambiental só acontece quando há lixo no terreno. “A presença do capim em volta das mudas é importante, pois mantém o solo úmido. Mas, por outro lado, dá a impressão de abandono, favorecendo a deposição de lixo doméstico. E é isso que cria condições para as pragas”, explica.

Um incêndio de características criminosas conseguiu destruir um trabalho desenvolvido pelo Vidágua nas margens do córrego Água Comprida, na região próxima ao Sambódromo. No local, a ONG promoveu o plantio de 3 mil mudas, em meados de 2000, mas dois incêndios queimaram praticamente tudo. De Marche suspeita de uma ação deliberada de posseiros ou grileiros que se instalaram no local para o cultivo de hortas.

Comentários

Comentários