Bairros

Esgoto e erosões castigam córregos

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Não são apenas os trabalhos de reflorestamento perdidos pela ação do homem que afligem os córregos e ribeirões que integram a bacia do Rio Bauru. Problemas antigos como o despejo de esgoto in natura e assoreamento causado por erosões atingem praticamente todos os mananciais, em graus diferentes de intensidade.

A situação do esgoto é especialmente séria, não só pela necessidade premente de seu tratamento, imposta por uma obrigação judicial acordada num Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público (MP), mas também porque até mesmo trechos já atendidos por interceptores continuam apresentando problemas de vazamentos que fazem com que dejetos voltem a ser despejados nos córregos.

O problema foi constatado em pelo menos dois fundos de vale - o do Córrego do Barreirinho e o do Água da Forquilha, justamente duas bacias que são palco de ações de recuperação das margens através de projetos de reflorestamento.

No Barreirinho, o diretor da Sociedade Amigos da Cidadania e Meio Ambiente, José Raul Franco Canheti, apontou problemas nos interceptores nas regiões do Jardim Flórida e nos núcleo Beija Flor e Bauru 2000. Já no córrego Água da Forquilha, a reportagem encontrou pelo menos dois pontos em que um líquido escuro e malcheiroso caía diretamente no leito do rio, logo abaixo da região em que o Instituto Ambiental Vidágua realizou a primeira etapa dos trabalhos de recuperação da mata ciliar.

O diretor-executivo do Vidágua, Ivan Alexandre Ferrazoli De Marche, garante já ter informado o Departamento de Água e Esgoto (DAE) sobre o problema, ressaltando que até mesmo a cerca que protege a área do reflorestamento está com um trecho aberto para permitir a passagem das máquinas da autarquia.

Através de sua assessoria de imprensa, o DAE informou que, quando notificada do problema, a autarquia providencia o conserto. Com relação aos vazamentos apontados, o DAE informa que o do Córrego do Barreirinho foi causado pelo furto de alguns equipamentos integrantes do sistema, como uma barra de ferro de oito metros de comprimento. No Forquilha, a autarquia alega que falta instalar 160 metros de interceptores, obra que, quando concluída, resolverá o problema de vazamentos.

Para tentar contornar a imposição do MP, o DAE recentemente assumiu o compromisso de instalar dez quilômetros de interceptores apenas neste ano, o que representa a construção de um quilômetro de rede por mês. O TAC, que venceu no dia 4 de junho de 2004, vem impondo uma multa diária de R$ 12 mil ao município, mas a autarquia tenta suspender, através de recurso, sua aplicação. Estão instalados apenas 23 quilômetros de interceptores, dos 34 quilômetros necessários para impedir o despejo de dejetos diretamente no leito dos córregos da cidade.

Solo perdido

Não menos preocupante é a situação das erosões e do conseqüente assoreamento que atinge praticamente todas a bacias. Em maio do ano passado, respondendo a um pedido de informações feito pela Câmara Municipal, a prefeitura informou que cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de terra foram carregados para os fundos de vale da cidade pelas erosões.

Para o ambientalista e vereador Rodrigo Agostinho (PMDB), a situação hoje com certeza é pior que a desenhada no ano passado. “Nenhuma ação efetiva de contenção foi realizada pela administração pública, que só atacou as erosões laminares (superficiais)”, afirma. O vereador lembra que o levantamento sequer listou todas as erosões da cidade naquela época e que, desde então, surgiram outras que vêm impondo ao município a perda de uma grande quantidade de solo.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, diz que todo este quadro de assoreamento dos mananciais é o principal causador das enchentes nas épocas de chuva. Para ele, alguns casos refletem claramente o quadro, como o da erosão do Jardim Jussara que enche de terra o leito do córrego Água do Sobrado.

Segundo ele, apenas nos últimos tempos mais de 30 mil caminhões de areia foram retirados do trecho do córrego próximo à avenida Alfredo Maia. Não por coincidência, o local é o mais afetado pelas enchentes.

Não bastasse o problema causado pelas erosões, destaca Brito, a situação é agravada pela ação da própria população, que insiste em jogar lixo e entulho nas proximidades dos rios. Ele cita como exemplo uma região do córrego Vargem Limpa, nas proximidades da Quinta da Bela Olinda, local freqüentemente utilizado por carroceiros e caçambeiros para deposição de entulho.

Segundo o coordenador da Defesa Civil, não há sistema de combate a enchentes que resista ao entulho e ao lixo jogados em locais impróprios. “O poder público pode gastar milhões e mesmo assim não conseguirá debelar um problema produzido por atos de grande irresponsabilidade da própria população”, conclui.

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