Regional

Vestiário de ginásio vira moradia em Reginópolis

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

A criatividade do brasileiro é fenomenal. Salta aos olhos ver como as pessoas em dificuldades resolvem seus problemas. Cinco famílias escolheram os vestiários de um ginásio de esportes de Reginópolis (70 quilômetros a noroeste de Bauru) para morar.

A cozinha da “casa” da lavradora Ivanilda Bueno Camargo, por exemplo, tem cinco banheiros. Uns servem como depósitos de utensílios domésticos. Um outro é a lavandeira, a instalação de água do chuveiro foi transformada em água para o tanquinho e outro está fechado.

Mas cozinhar num espaço com cinco privadas é insalubre. Mesmo assim, os moradores não reclamam. “A construção é de alvenaria e, além de não chover dentro, não tem que pagar aluguel.”

Aliás, foi por causa do pagamento de aluguel que a família da lavradora optou pelo ginásio de esportes. “Somos em 10 pessoas: eu, meu marido e oito filhos. Pagávamos R$ 130,00 de aluguel mais as despesas com água e energia elétrica. Os valores representavam o salário todo e não sobrava dinheiro para a alimentação.”

A divisão da “residência” até que atende algumas das necessidades, explica Ivanilda Camargo. “Eu e meu marido dormimos na sala. Os filhos dormem num quarto separado”. O quarto que a lavradora cita é outra parte do vestiário, com mais banheiros.

Para ela, a única dificuldade é que o esgoto não suporta toda a demanda e vive entupido. Ela esquece de dizer que o encanamento não é apropriado para receber toda a sujeira produzida na confecção da alimentação, banhos, lavagem de roupa, descargas, etc.

A “casa” tem até quadra de esportes, onde as crianças jogam bola e disputam espaço com as pombas, um problema de saúde pública, pois as fezes das aves podem causar várias doenças.

Uma delas é a criptococose, causada por fungos e transmitida pela ingestão de alimentos contaminados. Compromete o pulmão e pode afetar o sistema nervoso central. A salmonelose, causada por bactérias; a ornitose, causada por clamídeas e transmitida por inalação de fezes secas; além de alergias respiratórias provocadas pela inalação da penugem e dermatites transmitida por ácaros dos pombos.

As seis famílias esperam ansiosas para deixar o local rumo à nova moradia. “Eu quero sair daqui para um lugar mais decente. Vou trabalhar no mutirão junto com meu marido”, promete. A família está inscrita no projeto de desfavelamento, mas ainda não começou a trabalhar.

Primeira casa

A dona de casa Laine Aparecida Simão não vê a hora de ocupar a casa nova. Ela está cansada de sofrer no período de chuva, quando o córrego, que fica no fundo de seu quintal enche e transborda. “Eu sonho em deixar esta casa. Quero demolir a construção quando for para o conjunto habitacional.”

Sua vizinha, Nidelci Terezinha Zanata, vibra na mesma direção. “Acho que vai ser um sonho realizado. O córrego exala mau cheiro e na nova casa, vamos ter uma vida mais saudável”.

Para Benedito Francisco Ramos, 70 anos, o mutirão vai significar o fim da poluição do córrego. “Aqui, nós jogamos o esgoto direto no córrego. No período de calor, o odor é insuportável.”

Previsão de entrega

O conjunto habitacional Reginópólis “A” vai ter 47 casas. As obras devem ser concluídas no final de 2005, informa o CDHU. “O alvo são as famílias que moram às margens do córrego corredeira, Jardim Marajá”, diz o assistente técnico do CDHU, Edvaldo José Scoton. De acordo com ele, as unidades estão na fase de construção.

Para a prefeitura da cidade, as 47 unidades não são suficientes para atender a todos os necessitados. Há, pelo menos, mais 20 famílias que precisam deixar áreas de risco. O déficit habitacional, não só para essa faixa de renda, é de 150 casas. A administração municipal pretende fazer um emissário de esgoto no Jardim Marajá e uma área de preservação ambiental, onde estão localizadas as atuais casas.

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