Cultura

Gospel não atinge todos os públicos

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

“Escuta a palavra/ Javé, teu deus, vai falar/ Acolhe em tua alma/ Aprende a semear/ Pois Jesus é o caminho/ É conversão para nós/ A verdade e a vida.” A letra da música “Escuta a Palavra”, de Ivan Siqueira, dificilmente seria tocada num bar, casa noturna ou até mesmo restaurante, num sábado à noite, por exemplo, que é dia de balada.

A música é tocada pela Banda Pax, um grupo gospel de Bauru que, embora busque o estilo pop nos arranjos e pegadas, se apresenta principalmente em eventos relacionados à igreja - missas, eventos católicos, encontros de bandas gospel, casamentos e formaturas de alunos de instituições religiosas.

Os integrantes da banda, assim como os de outras bandas gospel da cidade, esbarram na dificuldade de ampliar seu público e atingir não necessariamente freqüentadores de igrejas. Para eles, existe dificuldade de aceitação do tipo de música que fazem.

“Eu acho que seria interessante (ampliar o público) porque divulgaria o trabalho da banda. Um dos nosso objetivos é mostrar nosso trabalho para todo mundo. Mas a gente esbarra na falta de campo em Bauru”, expõe Luiz Otávio Maziero, o Tavão, baterista da Banda Pax.

Ele destaca que as letras do grupo passam mensagens de paz, espiritualidade e amizade. “Há muitos lugares em que a gente gostaria de se apresentar, mas fica difícil porque não tem um evento em que possa tocar tanto pagode quanto rock e gospel”, avalia.

O baixista da banda, Cássio Razera, acredita que não há interesse de donos de bares e casas noturnas em contratar grupos gospel. “A gente sempre é a favor de tocar em vários locais para atingir as pessoas. Quanto mais, melhor. Nós aceitaríamos se fôssemos convidados e se houvesse o propósito de levar a mensagem”, garante.

A única oportunidade que a Banda Pax teve de tocar em local aberto para qualquer tipo de público foi em Águas de Lindóia (SP), em um caminhão-palco montado em uma praça. O evento era de comemoração ao aniversário da cidade. “A princípio, as pessoas ficam meio com pé atrás, principalmente por não conhecer muito as músicas. Mas a aceitação foi boa”, afirma Cássio.

O baixista teme que a aceitação não seja tão boa caso a banda venha a tocar numa casa noturna, por exemplo. “De repente, a gente toca num bar para jovens, num sábado à noite, e as pessoas não estão esperando esse tipo de música. Pode haver uma recepção negativa. Existe um pouco de preconceito”, argumenta.

A banda Dogma, que também tem repertório gospel, é outra que toca em missas e eventos católicos. Apesar de alternarem repertório gospel com covers de rock nacional, como Paralamas do Sucesso, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Legião Urbana, também afirmam que existe preconceito.

“Até poderíamos tocar em bares se tivesse algum planejamento diferente. Tem que ver se o público em geral aceitaria uma banda gospel tocando em um bar comum. Gostaríamos de expandir nosso público, mas, às vezes, há preconceito referente à religião”, diz.

Com influências de Beatles, Rush, The Who e Raul Seixas, entre outros, a banda Ichthuxs toca quinzenalmente nas missas da capela da Vila Vicentina, realizada aos domingos. Na opinião da vocalista Ana Carolina Manfrinato Pimentel, para conquistar outro tipo de público é preciso ser persistente. “A gente percebe que tem uma certa barreira para aceitar o nosso trabalho. É preciso de um trabalho árduo”, revela.

Ela acredita que, para tocar em eventos não religiosos, é preciso saber se o público está preparado e disposto a ouvir músicas de louvor. “Depende do público. Tem gente que não acha legal. É mais fácil tocar para quem está na igreja. Tem eventos que não combinariam com nosso repertório e não valeria a pena - como festas de bares, à noite”, justifica.

Iniciativa

Na opinião de Carlos Eduardo Reis D’Oliveira, proprietário de um bar de Bauru, não é impossível fazer eventos com bandas gospel em casas noturnas. Um dos requisitos principais, na opinião dele, é iniciativa.

“Eles (os músicos de banda gospel) não procuram contato com donos de casa noturna e bares para fazer shows nesses lugares. Se houver público para banda gospel, a gente até faria uma noite especial com esse som porque é um negócio legal. Eles tocam bem, são bandas boas, com músicos bons e estrutura legal”, frisa.

Ele ressalva, entretanto, que não seria viável contratar uma banda gospel para uma noite comum. “Não daria para colocar num dia qualquer pelo fato de a banda não ter esse contato com o público que freqüenta a noite. Eles tocam a maioria das vezes em igreja e locais de culto”, argumenta.

“Não é bem o dono de bar que não contrata. O público é que não tem visão de uma banda gospel tocando num bar que vende bebida alcóolica, onde o pessoal quer curtir”, acrescenta Carlos. Ele sugere que os grupos mesclem repertório gospel com covers de rock e pop, como forma de atrair outros tipos de público.

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