Portas e janelas fechadas. É assim que Sônia de Souza consegue afugentar de dentro de casa o mau cheiro e as mocas varejeiras que se multiplicam por causa do lixo não recolhido no final de semana. Moradora do Núcleo Habitacional Mary Dota, ela passou pelo contratempo porque o caminhão que fazia a coleta na sexta-feira passada quebrou e não foi recuperado a tempo de concluir o trabalho.
Reincidente, o problema resolvido ontem ainda atingiu bairros como o Higienópolis, onde a situação só deve ser normalizada hoje. Queixas também partiram de regiões como o Parque Júlio Nóbrega, Parque Vista Alegre, Parque Jaraguá, Núcleo Nobuji Nagasawa (Bauru 2000), Vila Cardia e Vila Paraíso, conforme admite a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), responsável pela coleta.
“Desde quarta-feira não passa (coletor) aqui. Está tudo amontoado. Os cachorros fazem a festa. O lixo estava tão bem controlado antes e agora virou isso aí”, reclama o aposentado Sebastião Leite, morador da quadra 2 da rua Praxedes Lopes Pinto, na Vila Paraíso. Vizinho dele, Odair Tadeu Jorge garante que a situação só não é pior porque choveu.
“Desde que o (prefeito) Tuga Angerami assumiu começou a mudar (o sistema de coleta). Não tem mais dia certo para passar (o caminhão). Quem administra a Emdurb não tem maturidade para gerir uma empresa com tantas dificuldades”, acrescenta Magali Teresinha Rosseto Moreno, moradora da quadra 2 da rua Concheta Maielo Ferreira, no Mary Dota. Nem meia hora depois da entrevista, o coletores recolheram o lixo de frente da casa dela, com dois dias de atraso.
“Tivemos problema com quebra de caçamba em dois trechos (Mary Dota e Higienópolis). Como são velhas, pararam de fabricar peças. Então não acha, temos de fazer adaptações. Não é um problema reincidente porque o Mary Dota é dividido em dois setores (um só foi prejudicado neste final de semana)”, explica o diretor de limpeza pública da Emdurb, Jorge Monteiro.
De acordo com ele, todos os 17 caminhões que compõem a frota estavam funcionando ontem. “Quando a gente assumiu a coleta, ela já se encontrava de forma deficitária. A gente decidiu mostrar a realidade da situação. Temos feito tudo para mantê-la, mas ainda enfrentamos dificuldades”, informa o diretor.
Uma delas diz respeito à quantidade de horas extras feitas pelos coletores, que foi limitada a duas horas diárias, conforme prevê a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na gestão anterior, elas totalizaram 8.800 horas por mês, sendo que a empresa conta com cerca de 130 funcionários para fazer o serviço.
Denúncia
As queixas referentes à recolha do lixo em Bauru devem ser levadas nesta semana ao Ministério Público pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm). Para o advogado da entidade, Sandro Fernandes, a Emdurb passa a impressão de que a coleta fora do normal tem sido intencional.
“Ela tem feito a população como refém da política de privatização. Nesta semana, vamos entrar com denúncia no Ministério Público. Todos somos contra o pagamento de horas indevidas, mas à medida que existe necessidade, já implica em falha administrativa”, diz Fernandes.
Ao rebater a afirmação, o presidente da Emdurb, Renato Purini, aponta o acordo firmado na gestão anterior, que reduz a jornada de trabalho dos coletores de oito para seis horas, como empecilho para a normalização da coleta.
“Essa diminuição de carga horária incorre na execução de hora extra. Não podemos abrir mão de cumprir a lei. Nós temos uma situação muito delicada, o que dificulta (manter a coleta no horário em alguns pontos). Nós deixamos a situação clara e pública. Seria uma incoerência minha querer forçar uma situação. Colocamos uma proposta (de terceirizar a coleta), que não foi aceita por alguns setores. Recuamos”, rebate Purini.
Ele aguarda o resultado da auditoria que será realizada para adotar uma medida definitiva, que possa transformar a Emdurb numa empresa viável.