Esta é uma história de pescador verdadeira e só quem é pescador sabe que tudo o que está narrado nesta história é possível e acontece todos os dias nas barrancas de nossos rios.
Já pesco há algum tempo, principalmente no Pantanal. Em outubro do ano passado levei meu sogro para o que seria sua primeira pescaria no Pantanal. Tirando as aulas de arremesso em um campo de futebol, este seria o primeiro contato dele com um molinete.
Como não poderia ser diferente, as atenções do grupo, todos pescadores “veiacos”, estavam voltadas para o meu sogro. Desde o primeiro quilômetro da estrada as apostas começaram a correr: quem vai pegar mais, quem vai capturar o maior, quem vai fisgar o primeiro, etc. No final da tarde já estávamos alojados no rancho e a ansiedade do sogrão nos levou a pescar naquela noite mesmo.
Estava para se revelar a primeira dificuldade do sogrão: entender que ele deveria arremessar no mesmo sentido que os outros, a favor da correnteza. Mas ele insistia em arremessar contra a correnteza, dizendo que o peixe estava em todo o rio, e que nós estávamos querendo enganá-lo. Depois de ver sua linha ficar passando por baixo do barco e enroscar na linha dos outros uma dezena de vezes, ele se convenceu e nos ouviu.
Apoitados num poção, buscávamos algum peixe de couro, quando a vara do sogro envergou e, com um misto de alegria e sarcasmo, começou a tirar sarro:
- Aí seus pantaneiros de meia tigela, o ‘véio’ pegou o primeiro!
A alegria deu lugar à decepção: após o peixe ser rebocado constatou-se que era um armau (também conhecido como abotoado, mandi capeta ou cuiu-cuiu). Como havíamos combinado que este peixe, juntamente com as piranhas e cachorras, não poderia ser contado em nossas apostas, estava tudo ‘zero a zero’.
Nesse momento se revelou a segunda dificuldade do sogro: entender e pronunciar os nomes dos peixes. Armau era ‘amaral’; piauçu virou ‘paraguaçu’; lobó era ‘bozó’ e cachara virou ‘cachaça’ (e o sogrão nem bebia!). Inconformado e dizendo que todo mundo o estava logrando, o sogro continuou pacientemente, até mais uma captura. A explosão de alegria e desafio foi inevitável:
- Não adianta enganar o ‘véio’, a justiça foi feita!
A alegria acabou logo que outro famigerado armau encostou no barco. Todo desanimado, o sogro sugeriu que fôssemos dormir.
Nos dias seguintes, a rotina continuou a mesma: por mais que o sogro mudasse a isca, o tamanho do anzol, a chumbada e até o lugar de sentar no barco, só capturava armaus, dezenas deles.
No último dia, aconteceu um fato muito estranho, mas verdadeiro: eu estava com um caranguejo iscado e a linha começou dar umas esticadinhas e percebi que tinha um pacu namorando minha isca. Como de costume, depois de muito ‘pega e larga’ na isca, o bicho pegou com vontade e correu. A fisgada foi firme e a carretilha cantou. Pela pegada e pela briga, tinha certeza que havia fisgado um bom pacu. Tal certeza se confirmou quando ele veio para cima. Parecia uma enorme bacia, que rebojou perto do piloteiro e desapareceu em apressada corrida para o fundo.
Neste momento, veio a idéia e passei a vara para o meu sogro para que ele pudesse sentir o gostinho de tirar um pacu, ainda mais daquele porte. Relutante, ele aceitou, afinal de contas, o peixe e a briga eram bons e ele ainda não tinha sentido o gostinho de batalhar com um peixe daquele tipo.
Depois de mais alguns minutos de briga, o espanto tomou conta de todos, pois um enorme armau estava preso na ponta da linha, onde até poucos instantes eu e piloteiro tínhamos visto um grande pacu! O piloteiro ficou estarrecido, chegando a fazer o sinal da cruz. Até hoje ninguém explica o que aconteceu.
Meu sogro, que não tinha visto o peixe quando subiu na primeira vez, acha que fiz uma brincadeira com ele, dizendo que era um pacu. Eu, que vi o pacu rebojando e depois o armau, acho que o pacu soltou do anzol e o armau pegou depois. Já o piloteiro, mais experiente e acostumado com os mistérios da pesca, garante que um peixe se transformou no outro.
Na volta, meu sogro estava quietão, daquele jeito que se fica quando volta “sapateiro”. Na chegada em casa, depois daquele abraço gostoso na família, veio a inevitável pergunta feita pela minha sogra:
- E aí ‘véio’, como foi a pescaria?
A resposta foi simples, mas somente quem estava na nossa pescaria é que entendeu, e caiu na gargalhada:
- Óia véia, no geral até que foi boa. O problema foi aquele intrometido amaral!
Adriano Rogério Patussi, é pescador e conquistou o terceiro lugar do Concurso Nacional de Causos de Pescador da revista virtual Pescarte (www.pescarte.com.br)