Cultura

Recursos para a tradição

Por Diego Molina | Agência Brasil
| Tempo de leitura: 6 min

Até o final do mês, projetos ligados a culturas populares terão a possibilidade de disputar cerca de R$ 2 milhões do governo federal, em recursos do Fundo Nacional da Cultura. Um edital público exclusivo para financiamento de propostas da área deve ser divulgado nos próximos dias, e os grupos ligados a tradições e manifestações culturais vislumbram a possibilidade de ampliar suas atividades com a verba.

O anúncio dos recursos foi feito na semana passada, após o 1.º Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares, realizado em Brasília e do qual participaram mais de 1.000 pessoas de todos os Estados. Como encerramento do evento, o secretário da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, recebeu uma carta com sete propostas de políticas públicas para o setor.

Na opinião do secretário, as propostas auxiliam na reorganização da política para o setor. Ele destaca também a necessidade de articulação com os governos estaduais e municipais. “Para conseguir realizá-las e ter resultados, conto muito com essas pessoas porque é isso que vai fortificar o ministério. A intenção é de continuidade e alargamento das ações”, afirma Mamberti.

Com a aprovação dos recursos e a organização das políticas públicas voltadas às culturas populares, o secretário planeja a promoção de uma conferência nacional com poder deliberativo, no próximo ano.

“Esse encontro se traduziu com muita emoção e grande afetividade, é um sonho que se torna realidade. Foi muito representativo das diferentes regiões do Brasil e temos um compromisso de continuidade”, acrescenta Mamberti.

Realidade local

Grupos e projetos que trabalham com atividades e movimentos culturais populares sofrem, em sua quase totalidade, do mesmo mal: a falta de recursos para a continuidade dos trabalhos, divulgação e investimentos para crescimento. Portanto, o anúncio de verbas destinadas especificamente para projetos dessa natureza não deixa de oferecer um respiro de esperança aos que batalham pela cultura brasileira.

Para Benedito Antônio, mais conhecido como Toninho Domingues, coordenador da Escolinha de Catira e presidente do Clube da Viola de Bauru, a possibilidade de recursos federais para os projetos seriam um grande incentivo para a ampliação das atividades. “Para nós, há grande interesse em obter recursos. Continuamos trabalhando, mas é praticamente com recursos próprios. Com uma verba de apoio, haveria mais condições para melhorar as apresentações”, diz.

Atualmente, a Escolinha de Catira conta com 20 alunos, e o Clube da Viola, com mais de 20 pessoas no coral, além das duplas que se apresentam freqüentemente com o grupo. “A falta de apoio acaba com o folclore, com a cultura. Eu fiquei parado muitos anos por falta de apoio e espaço. Hoje, não podemos reclamar, porém, com mais recursos, nossa situação seria mais amena”, afirma Antônio.

A situação é a mesma para o Grupo Folia de Reis de Bauru, um dos únicos em atividade no Estado. Em entrevista ao JC Cultura no início de janeiro, o coordenador do grupo, Antônio Correia, relatou a dificuldade em manter viva a tradição da festa dos Santos Reis e sua intenção em requisitar recursos públicos para a manutenção das atividades. “Queremos montar uma escolinha e ensinar a tradição, as histórias, e ensinar os meninos a tocar viola, cavaquinho. Quero manter essa raiz, sem cobrar nada”, afirmou na época.

A antropóloga Rosa Maria Araújo Simões, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) que é pesquisadora e coordena um projeto de extensão com aulas de capoeira angola, opina que um dos principais problemas para a marginalização dos movimentos populares são as próprias políticas públicas, que tratam os projetos e atividades de maneira superficial. O obstáculo é justamente uma das propostas elaboradas no seminário para reverter a situação.

“Há uma mentalidade de que a educação não deve ter interesse nas culturas. As manifestações ‘à margem’ de uma hegemonia têm formas próprias de existir e transmitir seu conhecimento. Há grupos organizados, com conhecimento aprofundado, mas as pessoas não têm noção do que seja um angoleiro ou de qualquer manifestação, porque não há educação para isso”, lamenta.

Segundo o assessor técnico de coordenação cultural da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Duílio Duka de Souza, não foi possível a participação de representantes de Bauru no seminário por conta da falta de participação nos encontros regionais, no ano passado, por representantes da última administração. “No entanto, temos grupos que se enquadram nos movimentos de cultura popular e temos muito interesse em participar de todos os projetos possíveis. Já temos alguns núcleos organizados para os projetos de Pontos de Cultura e também vamos aguardar o edital para ver a possibilidade de obter recursos nessa área também”, conclui.

Professor explica diferenças

As propostas do governo federal, assim como o site do 1.º Seminário Nacional de Culturas Populares, definem culturas populares como as manifestações ligadas às tradições de cada região brasileira, como os grupos de viola de cocho, de capoeira ou de Bumba-meu-boi.

Porém o conceito de cultura popular tem várias definições, de acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele explica que a mais antiga advém do Romantismo, no final do século 18 e início do século 19, quando a idéia representava um estágio passado da consciência humana – utilizada por cientistas da época para legitimar a dominação dos povos.

“A cultura popular é a confissão da inocência do nosso espírito. Se as elites eram capazes de pensar o mundo, as camadas populares eram baseadas nas tradições e nos valores não elitizados”, aponta Bertolli, que é doutor em história social.

Ele afirma que houve uma mudança no conceito por volta de 1930. “Getúlio Vargas trabalha isso no Brasil, a questão das raízes históricas da sociedade, que estariam nas culturas populares. Há uma apologia das festas populares, mas que são cultuadas como um fenômeno da história passada e não do presente”, diz.

Na década de 1970, surge uma nova definição para cultura popular. Segundo Bertolli, o conceito passa a ser pensado como uma cultura de “não-elite”. “Ela deixa de ser apenas a congada, a folia de reis, e passa a ser também o que ocorre no subúrbio: as procissões, a excursão dos farofeiros para a praia, a pelada na periferia. Ela passa a ser uma cultura de resistência. Se a cultura da elite se impõe, as pessoas reagem”, completa.

Para o antropólogo, atualmente a sociedade vive em um contexto com dificuldade de pensar a cultura popular como um movimento de resistência ou mesmo de estratégia grupal de direitos de cidadania. “Na história política, ainda há a junção dessas várias definições, mas o predominante parece ser o que é singelo, puro e inocente. O grande impasse da sociedade civil é se mobilizar para discutir com o Estado o que eles entendem como cultura popular”, finaliza.

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