Foram duas horas de muita angústia e apreensão. Talvez, as duas horas mais longas da vida do empresário Jad Zogheib, diretor-proprietário da rede de supermercados Confiança. Por volta das 15h, seu telefone celular tocou e ele foi avisado de que havia um incêndio no depósito da loja do Confiança Max, instalada no Jardim Estoril.
Jad estava no saguão do Aeroporto de Congonhas em São Paulo, à espera do vôo que o conduziria de volta a Bauru. Não havia muito o que fazer: duas horas (contabilizadas entre o embarque e a viagem) o separavam da cidade. Mesmo sob o impacto da notícia, o empresário procurou manter a calma e o equilíbrio.
Buscou nos flashes de sua memória o entorno do prédio do supermercado. Lembrou das piscinas da Associação Luso Brasileira de Bauru (ALBB) e deu a dica para o Corpo de Bombeiros. Por volta das 21h, já restabelecido do susto, Jad Zogheib calculava que o incêndio provocou prejuízos de alguns milhões de reais. O valor exato ainda será contabilizado. A seguir, a entrevista concedida ao JC:
Jornal da Cidade - Passado o susto e com a cabeça mais tranqüila, quais são as primeiras avaliações que o senhor faz da situação?
Jad Zogheib - Primeiramente gostaria de agradecer a Deus neste momento de tensão, de nervosismo, de provação, por não ter ocorrido o registro de vítimas. Ninguém se machucou. Desse momento crítico e difícil, que ninguém espera passar, infelizmente há riscos. Temos que estar preparados para essas adversidades. Pedi muito a Deus. Eu estava em São Paulo no momento do incêndio, aquele desespero. Foi um sufoco para tentar administrar à distância. Foram duas horas de muito nervosismo, de muita oração, angústia, pedindo equilíbrio a Deus, sabedoria, para poder administrar essa fase que vamos passar daqui para frente. Graças a Deus, não houve danos maiores. Foi só o depósito. A loja não sofreu nenhum dano.
JC - Já é possível prever quantos dias a loja vai ficar fechada?
Jad - Esse período de paralisação será o nosso maior dano. Vamos deixar de atender a comunidade. Mas vamos ampliar os horários nas outras lojas. Estamos nos preparando estruturalmente para isso. Peço aos nossos clientes uma solidariedade nesse sentido. Peço a eles que compreendam essa situação e procurem as outras lojas para fazerem suas compras. O prejuízo maior seria os nossos clientes deixarem de comparecer às nossas lojas. Não sei quanto tempo vamos ficar fechados. Pode ser uma semana, 15 dias, um mês. Não temos essa dimensão. O incêndio começou na cabine primária. Será feito um laudo de avaliação do que ocorreu. Vamos precisar de energia para restabelecer o funcionamento da loja.
JC - Há duas versões extra-oficiais sobre o foco inicial do incêndio. A primeira apontaria a atividade de um soldador no local. A outra estaria ligada a um conduíte de gás. O senhor já tem essas informações?
Jad - Não sei exatamente o motivo. Cheguei por volta das 18h. Ouvi alguns comentários do que poderia ser. Alguém instalando gás. Mas não posso afirmar. Amanhã (hoje) será possível visualizar onde foi o início do foco. Vamos ouvir o testemunho de alguns funcionários para podermos sentir onde é que se iniciou tudo isso. Mas a conseqüência foi essa. Infelizmente é duro dominar. O depósito é feito de paredes de concreto. O bombeiro não conseguia jogar água. Essa foi a maior angústia, a maior dificuldade. Havia aquela fumaça enorme para todos os lados. Era difícil de visualizar.
JC - Já é possível contabilizar os prejuízos?
Jad - Nesse momento não. Temos que avaliar mercadorias, equipamentos, instalações de armazenamento, câmaras frigoríficas, equipamentos de refrigeração, sala de máquinas, cabines de força. Tudo isso foi danificado. A parte física do prédio, o telhado, etc. Agora é um pouco difícil de mensurar. Mas afirmo que o prejuízo será de alguns milhões. Não sei exatamente quantos. Não será de uma ordem de grandeza pequena. Mas graças a Deus nos precavemos. Temos seguro de incêndio. Isso vai nos dar um conforto material.
JC - O combate ao incêndio mobilizou uma megaoperação do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e até mesmo de empresas e voluntários que disponibilizaram seus aparatos no sentido de colaborar para que fosse evitada uma tragédia. Foi gratificante para o senhor toda essa mobilização?
Jad - Realmente, a mobilização, a solidariedade das pessoas, da comunidade como um todo, foi gratificante. Não vou mencionar para não pecar. Fiquei sabendo de pessoas que vieram de Lençóis Paulista, de Jaú, trazer água. Fiquei impressionado com a solidariedade. Realmente, foi uma megaoperação. Foram dezenas de viaturas, de caminhões do DAE, de outras empresas privadas.
JC - O senhor falou que administrou essa situação de São Paulo, por telefone. Exatamente o quê o senhor orientava as pessoas com quem conversava?
Jad - Eu estava sozinho no aeroporto. Estava muito tenso. Foram duas horas de muita tensão, tentando administrar para que os bombeiros ficassem nas portas da loja e do depósito para que o fogo não atingisse as lojas, o que certamente provocaria um caos. Nesse sentido, fui dominando. Fui lembrando das coisas. Lembrei da Luso e de suas enormes piscinas, do hidrante do Banco do Brasil. Pedi para que o Corpo de Bombeiros ligasse para Jaú. Porque um fogo dessa magnitude não se apaga em meia hora.
JC - O senhor chegou de avião a Bauru. Qual foi o sentimento que o senhor teve ao olhar para baixo e ver o seu supermercado em chamas?
Jad - Não consegui ver porque o avião sempre desce na cabeceira da pista próxima ao supermercado. Mas devido à grande quantidade de fumaça na região, o avião pousou na cabeceira da pista do outro lado. E eu também não queria olhar muito. Se eu fizesse isso, com certeza ficaria mais tenso. E eu tinha que manter a calma e o equilíbrio nesse momento.
JC - Os funcionários foram treinados para enfrentar esse tipo de situação?
Jad - Sim. Temos a brigada de incêndio na Cipa. Mas as causas do incêndio nós não sabemos. Não dá para avaliar o que houve. Talvez foi uma coisa que se iniciou muito forte. E o medo das pessoas. Muita fumaça. As pessoas já não conseguiam entrar mais no depósito. É complicado.
JC - O que muda na sua vida a partir deste incêndio?
Jad - Para mim, é um momento de reflexão. Refleti porque tudo isso aconteceu, qual foi a causa. Pensei no lado do mal. Será que é alguma força ruim? Não posso acreditar nessa linha. São provações. Deus sabe porque faz as coisas. São preparações. São coisas materiais. E coisas materiais são administráveis, recuperáveis. Refleti muito sobre isso. Mas vamos aumentar o cuidado para que isso não aconteça novamente. Preparar mais a nossa equipe. Nunca houve incêndio de tanta magnitude. O próprio Corpo de Bombeiros terá de repensar porque faltou um pouco de estrutura. Faltou água no momento para esse porte de incêndio. É hora de repensar. Vamos ter que tirar lições.
JC - O grupo vive uma fase de investimentos e expansão. Estão em construção duas novas lojas na cidade. Haverá alguma alteração nos projetos?
Jad - Não vamos interromper em hipótese alguma. Estamos pensando positivamente. Neste momento, queremos restabelecer a loja. A partir de hoje (ontem) já estamos trabalhando para isso. Já acionamos o seguro. Assim que a Polícia Técnica liberar, amanhã mesmo (hoje) quero passar a máquina no depósito. Quero apagar essa imagem. Os projetos vão continuar. Não será esse episódio que vai nos fazer acreditar que não podemos superar. Acredito em Deus, na força superior. Ele tem me iluminado muito. Vou ter equilíbrio e sabedoria para conduzir esse momento de adversidade. Vamos superar. Penso positivamente. É assim que sempre pensei como empresário. Cheguei onde cheguei pensando positivamente, acreditando que tudo se supera. Já sinto os fluídos positivos de muita oração. Isso nos motiva, nos ergue, nos estimula a continuar com nosso negócio vivo e forte como nunca.