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Ortotanásia e eutanásia


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O que é a vida, afinal? É meramente um conjunto de reações bioquímicas até o momento não replicáveis simultaneamente? Ou algo com uma abrangência maior, sagrada e eterna? Advém das incertezas que cercam o sentido da existência humana a nossa perplexidade frente a este tema tão polêmico da eutanásia. Na prática diária da medicina fica claro que a atitude individual do paciente depende de crenças ou posturas filosóficas. Depende se acredita que a vida continua após a morte ou que as atitudes tomadas aqui têm ou não conseqüências futuras, por exemplo. Independentemente da diversidade de visões sobre a existência e também das novas e eficientes técnicas de tratamentos, existem instantes em que se perde a batalha contra as doenças. É então que uma pergunta se faz necessária: até quando é lícito prolongar com medidas artificiais a manutenção da vida vegetativa?

Com o advento dos transplantes de órgãos, veio a necessidade de se definir o momento do óbito como sendo o da morte cerebral, pois nessa hora seria lícito e viável a doação de órgãos, que precisariam ainda estar vivos, independentemente do cérebro. Contudo, na situação pungente da americana Terri Schiavo, este é um critério não preenchido: ela interage com o mundo, sorri docemente, respira espontaneamente e não sabemos o que pensa e se pensa. Existe grande confusão entre os diversos tipos de eutanásia, ou a boa morte. Uma é a eutanásia ativa, na qual o médico ou alguém causa ativamente a morte do indivíduo, e que é proibida por lei no Brasil. Anda de mãos dadas com o que é chamado de suicídio assistido, mas é regulamentada em alguns outros países, como Holanda e Dinamarca.

Em um outro extremo há a distanásia ou obstinação terapêutica, que, segundo o especialista em bioética padre Leo Pessini, "é uma ação, intervenção ou um procedimento médico que não atinge o objetivo de beneficiar a pessoa em fase terminal e que prolonga inútil e sofridamente o processo de morrer, procurando distanciar a morte". Sou contra a distanásia. E aqui vale um debate ético: afinal, a distanásia é diferente daquela situação em que um paciente com a doença do câncer ou aids controlada, por exemplo, tem uma infecção e vai para a UTI ou para uma intervenção cirúrgica, e tais procedimentos podem até melhorar sua qualidade de vida e aumentar o tempo de existência?

E como seria a verdadeira boa morte? Creio que é aquela denominada de morte assistida, e que, para não trazer o cunho negativo da terminologia eutanásia passiva, prefiro denominar de ortotanásia. É cuidar dos sintomas sem recorrer a medidas intervencionistas de suporte em quadros irreverssíveis. É respeitar o descanso merecido do corpo, o momento da limpeza da caixa preta de mágoas e rancores. Costumo falar a meus pacientes e familiares que, para o amor, não existe tempo nem espaço. Vivendo bem o momento presente, diminuindo as buscas desnecessárias por poder, posses e prestígio, podemos alavancar o melhor de nós mesmos, inclusive superando melhor as doenças que já temos. Com mais exercícios, dieta saudável, não fumando e não bebendo, com mais amizade e solidariedade, talvez possamos, quiçá, ficar menos doentes e a nossa morte vir na hora certa. Portanto, me parece razoável que sejam dadas as condições legais para buscarmos o equilíbrio não tentando retardar ou adiantar algo que é inerente à vida.

A autora, Nise Hitomi Yamaguchi, é médica, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica - Regional São Paulo e diretora do Instituto Avanços em Medicina

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