“Num domingo, faz perto de 30 anos, passei por Piraju e fiquei impressionado com a quantidade de pescadores no rio Paranapanema. Sempre havia um ou outro brigando com uma piapara e com isso fiquei por ali um bom tempo e notei que havia pontos melhores. Conversando com os pescadores locais, descobri que tais pontos eram disputadíssimos e quem quisesse ocupá-los deveria chegar de madrugada.
Como sempre gostei de pescaria, convidei um amigo e marcamos para ir no domingo seguinte. Levantamos lá pelas duas da manhã e logo estávamos na estrada. Às 4h chegamos na beira do rio (de Fusca 1200) e um largo sorriso inundou nossos rostos quando vimos que éramos os primeiros; podíamos escolher o lugar à vontade.
Vamos falar primeiro da tralha que levamos. Para não haver erro, cada um levou umas dez varas. Ação média, leve, extraleve, telescópicas, próprias para molinete, para carretilha, etc, etc, etc. Carretilhas e molinetes de várias marcas, espécies e tamanhos. Linhas brancas, coloridas, com alma, sem alma, em todas as bitolas. Bóias de arremesso, com chumbo, sem, chumbo, com antena e tantos outros tipos. Não podiam faltar ferramentas, faca, facão, alicate de corte e de bico, alicate com balança, tudo acondicionado num colete igual aos usados pelo Rambo em seus melhores filmes.
Anzóis japoneses, noruegueses, de perna curta, perna longa, os chamados puxa-sacos, com e sem farpa, tudo que o mercado coloca à disposição. As iscas, estas merecem maior destaque. Como não estávamos acostumados aos padrões de paladar daqueles peixes, fomos prevenidos: levamos queijos variados, até tofu para o caso de algum com costumes orientais. Levamos ainda minhoca, massa, ração de gato e de peixe, milho cru, cozido, azedo, milho verde, salsicha e mortadela. Iscas artificiais de superfície, de meia água, de profundidade, algumas que produzem luz e som na água, jigs, spiners, moscas, enfim, tudo que se pode comprar no www.polishop.com.br ou nas melhores barracas de bugigangas do Paraguai.
Ainda escuro, aboletados sobre nossas banquetas de montar, começamos a pesca. O tempo passava e o máximo que acontecia era um peixe levar a isca sem que percebêssemos. Outros pescadores foram chegando e em pouco tempo todos os pontos estavam tomados.
Lá pelas 7h, chegou um senhor baixo e franzino, bem idoso, que chamaremos apenas de velhinho. Ele estava somente com uma sacola e uma vara de bambu, passou por nós pedindo licença e se desfazendo em mesuras, ocupando uma pedra próxima.
Depois de acender um ‘paierim’, iscou o anzol e arremessou tão longe quanto permitia seu tosco equipamento. Não levou dois minutos e o velhinho fisgou a primeira piapara com cerca de 800 gramas, que deu trabalho para ir para a sacola. Notando nosso desconforto, o velhinho olhou para a parafernália que era nosso equipamento e disse: ‘puxa vida, mai ocêis têm uma traia jeitada dimais!’.
Assim continuou e a cada peixe que o velhinho fisgava, repetia o elogio, como que se penitenciando.
Lá pelas 9h, o dito cujo já tinha capturado dez piaparas e nós continuávamos sem sentir a sensação de um puxão. Então, depois de ouvir a décima referência sobre nossa ‘traia jeitada’ e de muito segurar para não mandar o velhinho para aquele lugar, resolvemos tirar o time de campo, sair de fininho para não pagar mais mico.
E aí aconteceu: a vara do meu amigo vergou com uma vigorosa puxada, que certamente não era piapara, e a fisgada foi mais violenta ainda. Tão violenta que o amigo caiu atabalhoadamente da banqueta e por pouco não foi parar na água, mas não conseguiu fisgar o peixe nem evitar que o anzol enroscasse.
Levantou-se tão rápido quanto pôde, apertou a fricção e começou a puxar. Soltando-se o anzol, a chumbada passou como uma bala entre nossas cabeças indo enroscar em um galho na margem às nossas costas. Os risos e comentários dos vizinhos foram uma festa, só o velhinho nos consolou: ‘isso contece cum quarqué um genti’.
Foi a gota, ou o balde d’água. Vamos embora de vez.
Percebendo que partíamos, o velhinho fez sua última observação: ‘eu tamém vô tê quimbora, só tenho duas isca di resto, só vai dá pra mordi pegá mais dois pexi, mais óia, ocêis são uns caboco di bão gosto, tem uma traia i tanto’.
O pescador Jovercy Bergamaschi gosta de pescar e nunca mente, ou melhor, quase nunca.