Na tarde de 16 de novembro de 1978, após dois dias de deliberações, o colégio cardinalício chegou a acordo sobre o nome do novo papa. Um representante do grupo, o cardeal Pericle Felice, dirigiu-se à multidão reunida na Praça São Pedro e disse, em latim, a língua oficial da Igreja Católica: “Habemus papam.â€
A multidão respondeu com aplausos e silenciou logo em seguida, à espera do nome do eleito. Esperava-se que ele causaria uma manifestação de alegria ainda maior. Mas quando o cardeal pronunciou o nome Karol Wojtyla, houve alguns breves segundos de silêncio, enquanto as pessoas se entreolhavam, confusas, como se perguntassem: quem?
O nome polonês era desconhecido da maioria dos católicos. E também dos jornalistas. Nem os veteranos na cobertura de assuntos do Vaticano haviam incluído seu nome nas listas dos papáveis. Ele também não figurava no material distribuído dias antes pela assessoria de imprensa da cúria romana, com as biografias dos 36 cardeais com maiores chances de serem eleitos. Nas horas e dias seguintes, porém, emergiriam da Polônia histórias de um homem que parecia ter passado toda vida se preparando para aquela missão. No período de 32 anos, durante o qual fez a travessia entre Cracóvia, onde se ordenou, e a Santa Sé, em Roma, poucos líderes religiosos de sua época se destacaram como ele no trabalho pastoral, intelectual e político.
Melancolia e solidão
João Paulo II nasceu no dia 18 de maio de 1920, na pequena cidade de Wadowice. Recebeu o nome do pai, Karol Wojtyla, oficial reformado do exército polonês, católico, de hábitos reservados. Sua mãe, Emilia, era uma dona de casa de saúde frágil, melancólica, que não se conformava com a morte de uma filha, recém-nascida, em 1914. A infância e a juventude do futuro papa foram marcadas pela tragédia familiar. Em 1929, pouco antes de completar o nono aniversário, ele perdeu a mãe, vítima de uma doença nos rins. O irmão mais velho morreria dois anos depois, com escarlatina. A morte do pai, que o mergulharia numa profunda sensação de solidão, ocorreu semanas antes de Karol completar 22 anos. Ele ficou sozinho, sem parentes. Naquela época já era universitário em Cracóvia e sonhava com uma carreira na área artística. Entusiasmado com o teatro, participava da encenação de peças, e também escrevia poemas. Embora demonstrasse uma devoção religiosa incomum e já tivesse sido convidado mais de uma vez para entrar no seminário, ele não pensava em ser padre. Achava que serviria melhor à Igreja como leigo católico.
A vocação sacerdotal despertou num período difícil, logo após a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler. A Igreja Católica, que em outras invasões do país funcionara como um fator de identidade nacional, preservando a cultura e estimulando movimentos de libertação, começou a ser perseguida. Os nazistas fecharam os seminários e assassinaram centenas de padres e freiras, acusados de traição. A Igreja, porém, resistiu e continuou a formar sacerdotes em seminários clandestinos. Foi num deles que Wojtyla começou. Trabalhava durante o dia como operário numa fábrica de soda cáustica e à noite tinha aulas com os padres. Nessa época sofreu um acidente que o deixou de frente com a morte. Atropelado por um carro de guerra alemão, teve uma concussão cerebral e ficou inconsciente durante nove horas - um período perigoso em acidentes desse tipo.
Protetor
Wojtyla foi ordenado padre no dia 1 de novembro de 1946, Dia de Todos os Santos, no calendário litúrgico. Sua capacidade intelectual e dedicação aos estudos chamaram a atenção do arcebispo de Cracóvia e futuro cardeal, Adam Stefan Sapieha, que se tornou seu protetor. Logo após a ordenação, ele despachou Wojtyla para Roma, onde faria os estudos de pós-graduação. A carreira na Igreja foi meteórica. Tornou-se bispo aos 38 anos e foi trabalhar como auxiliar na Arquidiocese de Cracóvia. Após a morte de Sapieha, em 1963, ascendeu ao cargo de arcebispo.
Desenvolveu um trabalho pastoral vigoroso, que o aproximava do povo, e apurou seu senso de história e de política - o que era fundamental para a sobrevivência da Igreja sob o regime comunista que sucedera ao nazismo na Polônia. Aos poucos, o arcebispo de Cracóvia tornou-se uma referência religiosa e política no país. Sua influência no interior da Igreja também começou a aumentar, empurrada pela sua capacidade de conquistar amigos, pela erudição em assuntos doutrinários e pela facilidade com que aprendia línguas. Wojtyla chegou a falar 11 línguas.
Em 1967, o papa Paulo VI, que recorreu a ele mais de uma vez para consultas sobre temas políticos e de doutrina moral, recompensou seu trabalho com a púrpura cardinalícia. Aos 47 anos, Wojtyla tornou-se um dos mais jovens cardeais do mundo. Quando o colégio cardinalício o elegeu em 1978 e o cardeal Jean Villot, o chefe da burocracia do Vaticano, aproximou-se e perguntou ao polonês se aceitava aquela missão, a resposta foi piedosa, mas inequívoca: “Em obediência à fé em Cristo, meu Senhor, confiando na Mãe de Cristo e na Igreja, não obstante as graves dificuldades, aceito.†A seguir, Villot indagou qual seria seu nome como pontífice. Ele respondeu: “João Paulo IIâ€. Era uma homenagem ao papa que o precedera e que ficara apenas 33 dias no cargo.
Vigoroso
Wojtyla iniciou o pontificado com 58 anos - uma idade baixa para os padrões da Igreja. Desde 1846 não se escolhia um papa tão jovem. Na época, exibia boa saúde e um físico vigoroso, obtido com a ajuda de constantes caminhadas pelas montanhas da Europa - hábito que manteria mesmo depois de papa, nos períodos de férias. Era capaz de submeter-se a um ritmo pesado de trabalho, característica comum entre padres da Polônia, que conviviam com o comunismo.
Quem? A resposta à pergunta dos peregrinos da Praça São Pedro veio como um furacão. João Paulo II começou a viajar e a mostrar-se para o mundo em 1979, quando foi a Puebla, no México, participar de uma reunião do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Fez questão de desfilar em carro aberto entre os milhares de mexicanos que foram às ruas para saudá-lo. O veículo especialmente preparado para a ocasião era uma espécie de protótipo do papamóvel, que também se tornaria uma característica de suas missões pelo mundo.
Em suas viagens apostólicas, chegou a visitar até seis países de uma vez. A TV não se cansou de mostrá-lo, com gestos teatrais e à vontade diante das multidões e das câmeras - o que sempre fazia alguém lembrar dos seus tempos de ator. Wojtyla quis ser ouvido no mundo inteiro, não só pelos católicos. Foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga em Roma. Estimulou o diálogo com outros igrejas, cristãs e não-cristãs. Escreveu 14 encíclicas, 42 cartas apostólicas, 11 exortações e centenas de discursos. Quando os editores da revista Time o escolheram como Homem do Ano, em 1994, disseram que o faziam por causa de sua força moral. Numa época em que tantas pessoas lamentavam o declínio dos valores, segundo a revista, era notável o esforço que o papa fazia para propagar sua visão de uma vida reta, convidando o mundo a fazer o mesmo.
Terror
As tragédias pessoais, porém, continuaram a perseguir o pontífice. No final da tarde do dia 13 de maio de 1981, o papa foi vítima de um atentado terrorista, na Praça São Pedro. Com uma pistola Browning Parabellum, 9mm, o turco Mehmet Ali Agca, que se encontrava no meio de uma multidão de 20 mil peregrinos e turistas, fez dois disparos. Um deles acertou o alvo.
A bala desviou-se por milímetros da aorta central. Mas o papa teve o cólon e o intestino perfurados e perdeu 60% do seu sangue com a hemorragia interna. Chegou a receber o sacramento da extrema-unção, a caminho do hospital, onde seria submetido a uma complicada cirurgia, com quase seis horas de duração. Em junho do mesmo ano o papa voltaria ao hospital, para tratar de uma infecção causada por cytomegalovirus, freqüentemente transmitido em transfusões de sangue, e submeter-se a uma nova cirurgia, destinada a reverter a colostomia feita em maio.
Devoção filial
O episódio deixou mais visível a devoção mariana de Wojtyla. Ao ser atingido pelo tiro, a primeira coisa que disse foi “Maria, minha mãeâ€. Mais tarde, afirmaria que só não morreu por um verdadeiro milagre, intercedido pela Virgem de Fátima, cuja data litúrgica era comemorada exatamente no dia 13 de maio. Um ano depois, o papa foi ao Santuário de Fátima, em Portugal, agradecer à Virgem. Ao sair, deixou sobre o altar a bala retirada de seu corpo. O cinto perfurado e manchado de sangue que usava por ocasião do tirou teve outro destino: o santuário da Madona Negra de Czestochowa, na sua querida Polônia. Durante a visita a Fátima, a vida de Wojtyla foi mais uma vez ameaçada. Juan Fernández Khron, um padre de 33 anos e com distúrbios psicológicos, avançou contra ele armado com um faca, mas foi detido a tempo pelos seguranças. O papa o perdoou, assim como havia perdoado Ali Agca, a quem abençoou pessoalmente na prisão onde se encontrava em Roma.
A devoção mariana vinha desde a infância. Logo após a morte da mãe, Wojtyla passava todos os dias por uma igreja próxima a sua casa e orava diante do altar da Virgem. Aos 15 anos ingressou na Associação de Maria, uma irmandade nacional altamente espiritualizada, da qual seria presidente. Quando tornou-se bispo e teve de escolher, de acordo com a tradição, um lema para a sua vida, ficou com a expressão mariana Totus tuus (Todo teu). No Vaticano, escreveu uma encíclica inteiramente dedicada à questão mariana, denominada Redemptoris Mater (A Mãe do Redentor).
Graças ao seu bom estado físico, o papa recuperou-se rapidamente e não teve problemas graves de saúde até 1992, quando enfrentou outra cirurgia, de quatro horas. Dessa vez, para remover um tumor pré-cancerígeno, do tamanho de uma laranja, instalado no cólon. Nos anos seguintes, ele sofreria distúrbios digestivos recorrentes, acompanhado de rumores, sempre desmentidos, de que teria câncer. Em 1994 viria mais um problema: ele escorregou, caiu no banheiro de seu apartamento no Vaticano e quebrou o quadril . Foram mais duas horas sob aneste-sia geral, para a implantação de uma prótese na área atingida. A partir de então, Wojtyla, então com 74 anos, começou a dar sinais de enfraquecimento geral. A voz tornou-se mais fraca e surgiram dificuldades para caminhar. O tremor em sua mão esquerda, cada vez mais acentuado, sugeria que sofria com o mal de Parkinson.
O auge do pontificado de João Paulo II pode ser localizado entre 1980 e 1994. Os anos seguintes foram marcados por enormes dificuldades pessoais e a inevitável redução no ritmo de compromissos. Mas ele prosseguiu firme até o final.
Wojtyla via no seu sofrimento uma oportunidade de provação e fortalecimento da fé e chegava a agradecer à Virgem por isso. Esse senso de martírio era outra característica marcante dele e ajuda a compreender o fato de que o santo ao qual era mais devoto, depois de Nossa Senhora, foi um mártir, o bispo polonês Estanislau, assassinado diante de um altar, por ordem de um rei tirânico, nove séculos atrás.
Finalmente, não se pode esquecer de que João Paulo II era movido pela idéia inabalável de que tinha uma missão a cumprir e para a qual se preparou com firmeza inquebrantável: a de conduzir a Igreja. E fez isso até o fim.