João Paulo II

Cardeais ficam isolados até a escolha do novo papa

Por Assimina Vlahou | Agência Estado
| Tempo de leitura: 4 min

O novo líder da Igreja Católica será escolhido por um grupo de 120 cardeais, representando 54 países. Formam o chamado colégio cardinalício, do qual não podem participar cardeais com mais de 80 anos de idade. Os cardeais, também chamados de príncipes da Igreja, constituem uma elite, um dos principais símbolos da monarquia absoluta que é a Santa Sé, com regulamentos e rituais milenares como o do conclave. Se a Igreja Católica “não é uma democracia”, como já disse o próprio papa João Paulo II, o único momento em que mais se aproxima dela é justamente no conclave - em que os cardeais exprimem a própria vontade e decidem. O conclave é realizado sob um clima de absoluto segredo. Os cardeais eleitores se reúnem num prazo máximo de 20 dias após a morte do pontífice, para assistir à missa votiva “pro eligendo papa”. Sob estreita vigilância, para se não comunicarem com ninguém no caminho, vão em procissão até a suntuosa Capela Sistina. No caminho, invocam a inspiração do Espírito Santo com o cântico Veni Creator.

Chaminé

A Capela Sistina, sede dos conclaves desde que foi construída no século 15, é a capela particular dos papas e o ambiente mais célebre dos palácios vaticanos. Durante as reuniões de votação, os cardeais se distribuem em duas filas laterais. Cada um tem uma poltrona de madeira com escrivaninha coberta de feltro bege e vermelho. Na frente do altar, sob o afresco O Juízo Final, de Michelan-gelo, são colocadas três mesas: uma para a urna e duas para os es-crutinadores. A estufa onde são queimadas as cédulas depois da contagem dos votos fica no fundo da capela. A queima é feita junto com os papéis usados pelos cardeais para anotações, isto para impedir que se conheçam os alinhamentos políticos que caracterizam a eleição. Do lado de fora, a chaminé concentra as atenções do mundo inteiro, pois é através dela que as pessoas acompanham a votação e ficam sabendo se o novo papa já foi eleito. Se a fumaça sair preta, quer dizer que ainda não há um novo pontífice. Quando os cardeais escolhem o nome, a fumaça torna-se branca simplesmente acrescentando palha umedecida às cédulas queimadas. Eliminadas as antigas votações por aclamação e por compromisso, o sucessor de João Paulo II será eleito por voto escrito - escrutínio -, com a maioria de dois terços.

Batalhas

É interesse do Vaticano que o conclave seja rápido, para evitar que a opinião pública pense que os cardeais estão travando duras batalhas, o que de fato pode ocorrer. Caso não cheguem a um acordo, depois de três dias de escrutínios completos, com duas votações pela manhã e duas à tarde, será feita uma pausa. Se permanecer o impasse, quando se retomarem as votações, são previstas três séries de sete escrutínios com uma pausa após cada uma delas. Não se obtendo resultado, passa-se à eleição por maioria absoluta entre os dois nomes mais votados.

O cardeais devem manter segredo absoluto sobre tudo o que diz respeito ao conclave - nome que se dá à assembléia que elege o pontífice. A palavra, usada desde o século 13, quando foi instituído o isolamento para a votação, vem do latim e quer dizer “sob chaves” ou “quarto fechado”, para evidenciar o caráter secreto de toda a operação.

O sigilo continua valendo, apesar dos séculos, e foi reforçado por João Paulo II na constituição apostólica de 1996 que trata da sucessão. Quem não respeita o segredo corre o risco de ser excomungado. Antes de iniciar a votação, os cardeais juram manter segredo até mesmo depois de encerrada a eleição.

A preocupação é tão grande que, antes do início da votação, a Capela Sistina é minuciosamente vasculhada por técnicos especializados, à procura de eventuais sistemas de gravação secretos que podem ter sido instalados por espiões.

Para evitar qualquer contato com o exterior, aos cardeais é vetado o uso de telefones celulares, computadores e gravadores. E para não serem influenciados nem perderem a concentração, os eleitores são proibidos de ler jornais, ver televisão e ouvir rádio. Além disso, devem suspender a correspondência durante todo o período que durar o conclave.

Pode parecer muito rigoroso, mas não é nada em comparação com os tempos passados, quando os eleitores dos papas eram confinados em cubículos sem aquecimento e serviços de higiene. O conclave que que elegeu Gregório X em 1271 demorou três anos e os cardeais só chegaram a um acordo sob tortura: primeiro ficaram sem comida e depois sem o teto onde estavam hospedados. E era inverno.

Comentários

Comentários