Antes de iniciar o conclave, os cardeais cantam Veni Creator. É uma invocação do Espírito Santo, para que os ilumine na missão de escolher o sucessor de Pedro - o pescador que recebeu de Cristo a promessa de que seria “a rocha†sobre a qual assentaria a construção da Igreja, segundo relato do evangelista Mateus. Nem sempre, porém, a escolha foi iluminada. Em mais de uma ocasião ascenderam ao trono homens que aviltaram o cargo e envergonharam não apenas os católicos, mas toda a humanidade. Há momentos na crônica do papado marcados absolutamente por lutas pelo poder e pelo dinheiro, num ambiente corrupto, devasso e violento.
A lista de papas que encarnaram esse lado obscuro da história da Igreja é longa. Só para citar alguns exemplos, pode ser lembrado o caso de Estevão VI, que após ser eleito papa, no ano de 896, deu-se ao trabalho de arrancar do túmulo o cadáver de seu antecessor, do qual não gostava, para submetê-lo a um julgamento e condená-lo por traição. Depois atirou o corpo no rio Tibre. João XII, eleito com apenas 18 anos por imposição de seu pai, o rei Alberico II, em 955, tornou-se famoso pela devassidão e pelos numerosos crimes que praticou. Em 1045, Gregório VI comprou o título de papa de seu antecessor, Bento IX - por uma elevada soma.
As disputas internas eram tão grandes que entre 217 e 1449 existiram vários antipapas - eleitos por minorias do colégio cardinalício, por motivos teológicos, políticos ou pessoas. “Houve um período em que chegou a haver não apenas dois, mas até três papas ao mesmo tempo, todos eles convencidos da legitimidade de sua eleiçãoâ€, escreveu o historiador Rudolf Fischer Wollpert, no livro Léxico dos Papas, da Editora Vozes. Pode-se afirmar, porém, que houve mais acertos que erros nas escolhas para o trono de Pedro. A Igreja não teria sobrevivido só com fracassos. Alguns papas revelaram-se grandes homens, não apenas do ponto de vista piedoso, mas também como políticos refinados, que ajudaram a consolidar os Estados europeus. Entre eles encontra-se Leão Magno (440-461), vigorosa personalidade religiosa e política. Ajudou a salvar o povo italiano de massacres em mais de uma ocasião, no período das invasões dos bárbaros. Gregório Magno (590- 604), também conhecido como Gregório, o Grande, é venerado como santo e considerado um dos maiores papas da história. Nasceu nobre e rico, mas decidiu viver na pobreza, como monge beneditino, e destinou tudo que tinha à construção de mosteiros. Relutou muito antes de aceitar o cargo de pontífice. De acordo com os biógrafos de João Paulo II, ele inspirou-se principalmente no exemplo desse monge.
No século 20, segundo o vaticanista Marco Politi, os cardeais foram mais iluminados que seus colegas do passado na hora da escolha. “Se olharmos os últimos cem anos, a Igreja Católica sempre conseguiu encontrar personalidades de altíssimo nívelâ€, disse ele à repórter Assimina Vlahou, em Roma. “O percentual de acerto na seleção de líderes é muito alto para a instituição.â€
Ele citou como exemplo de acerto os papas que governaram a Igreja nos últimos 50 anos: Pio XII (1039-1958), João XXIII (1958-1963), Paulo VI (1963-1978), João Paulo I (1978) e João Paulo II (1978-2000). Foram todos papas de primeira grandeza, segundo Politi. “Qual foi o Estado que conseguiu produzir em 50 anos um número igual de presidente de alto nível?â€, perguntou ele. E concluiu: “O processo de seleção na Igreja é muito refinado e eficaz.â€