Tribuna do Leitor

A dignidade de Terry


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As autoridades da medicina que se pronunciaram pela imprensa, no polêmico caso Terry Schiavo, foram categóricas ao afirmar em suas declarações que ela encontrava-se em um estado que não mais lhe permitia pensar, sentir, ter emoções e fazer qualquer movimento que fosse voluntário. E, com o pragmatismo inerente à maioria daqueles que se dedicam ao estudo da vida e da morte, o classificavam como “estado vegetativo persistente”.

A polêmica que cercou e ainda cerca o caso, dando-lhe repercussão mundial, afetou também aos sociólogos, psicólogos, religiosos, filósofos, políticos e toda uma gama de pensadores e estudiosos. Também repercutiu de maneira predominantemente triste junto aos leigos, que puderam acompanhar, horrorizados, a agonia de um ser humano, que só culminou após treze dias sem os recursos artificiais que a mantinham viva e sem receber alimentação e água.

Acompanhando o caso, tomei conhecimento de que, segundo um jurista americano, chamado Marc Spindelman, da Faculdade de Direito da Universidade Estadual de Ohio, especialista em bioética, o procedimento que foi tomado no caso de Terry, com a suspensão de tratamento, desligamento dos aparelhos que a mantinham viva e a retirada da sonda, pela qual ela recebia água e comida, não caracterizou a prática da eutanásia. Segundo o jurista, tratou-se de apenas "deixar a natureza seguir seu curso, quando as possibilidades de cura já estavam esgotadas”. E isso, ainda segundo o jurista, tem um outro nome. É a ortotanásia.

Mas nós, leigos e simples mortais, perguntamos. Qual é a diferença? O caso arrastou-se triste e de uma maneira desumana. Os pais queriam manter a filha viva, ou da maneira que ela estava, enquanto travava-se uma verdadeira guerra envolvendo frentes defensoras da legalização da prática da eutanásia e aqueles que se mostram radicalmente contrários a essa legalização. Poder Judiciário, Congresso Nacional, manifestações religiosas e os dias de agonia iam se passando.

Ainda segundo o especialista em bioética, a eutanásia é outra coisa e “exige uma postura mais ativa do médico e do paciente e nada mais é que um suicídio assistido, normalmente com a injeção de uma droga letal...”

Bem, mas o caso é que, em ambas as interpretações ou procedimentos, nem a eutanásia e nem a ortotanásia garantiram a dignidade de Terry. Sua passagem do estado “viva” para o estado “morta” foi lento, frio, triste, cruel e desumano, sendo acompanhado por todos, passo a passo, hora a hora e dia a dia...

Todos sabiam e sabem que, a exemplo de outros pontos que se afiguravam polêmicos, como o divorcio, o aborto e outros, a prática da eutanásia, mais dias ou menos dias, será aprovada. E isso se dará em nome da Lógica, da Coerência, da Ciência, da Ética ou mesmo em nome da Ignorância e do Materialismo. O lamentável é que fizeram de Terry, uma jovem senhora de quarenta e um anos, mais uma bandeira para defenderem as suas teses ou teorias.

Acabo de saber, pela televisão, que Terry se foi... E se foi levando consigo as dores, a fome, a sede que jamais saberemos se sentiu ou não.

Terry se foi deste mundo onde um traçado num monitor mostra que a Medicina está ou julga estar tão evoluída que desconsidera a existência da alma ou do espírito.

Poeta e escritor Carlos Abreu Carvalho - RG. 8.087.263-3

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