O público de Bauru terá o privilégio de conferir, hoje à noite, o encontro de dois dos maiores instrumentistas brasileiros que há quase 50 anos não tocam juntos: o trombonista Raul de Souza e o flautista Altamiro Carrilho.
Eles fizeram muito sucesso juntos na década de 50, quando integravam a “Turma da Gafieira”, grupo de onze músicos - entre eles Baden Pawell, Sivuca, José Bodega e Hélio Marinho - bastante reconhecido no País e no Exterior que gravou um CD homônimo em 1955, com todas as faixas assinadas pelo flautista.
“Foi um sucesso entre os jazzistas. Teve vendagem muito boa, mas não execução em rádio. Já naquela época a música cantada vendia mais e a instrumental ficava prejudicada”, conta Carrilho, 81 anos, em entrevista por telefone ao JC Cultura.
Ele conta que Raul foi uma das revelações. “Não tínhamos nenhum outro trombonista com a disposição dele. Ele chegou como quem diz ‘dá licença que eu quero passar’, destaca.
Carrilho acredita que o grupo não ultrapassou a barreira dos anos 60 porque foi ofuscado pela chegada do rock ao País. Nessa época, muitos dos músicos do grupo mudaram-se para outros países - caso de Raul de Souza. “O advento do rock foi um desastre total para a nossa música”, avalia o flautista.
Desde então, os dois não sobem juntos ao palco. Há cerca de 12 anos, se encontraram em um estúdio no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Carrilho recebeu um cartão de Natal de Souza, que há oito anos mora em Paris, na França. “Será uma maravilha”, diz Souza, em entrevista ao JC Cultura. “O Altamiro é meu amigo há muitos anos”, frisa o trombonista, que não revela a idade.
O flautista também mostra-se ansioso para o reencontro. “Adorei a idéia (de tocar com Raul de Souza). Gosto de dividir o palco com qualquer músico que seja bom”, diz.
O repertório do show, entretanto, é surpresa. “Não é bom saber o que vai comer. Bom é sentar à mesa sem saber qual é o cardápio”, brinca Carrilho, que promete muito improviso. “Bom é lembrar uma música na hora e poder tocar, improvisar”, acrescenta o músico, que recentemente gravou um CD com o pianista Arthur Moreira Lima e tem shows programados para Paris, ainda este ano.
Já o trombonista tem percorrido a Europa tocando em diversos países mas vem todo ano ao Brasil. Em 2004, por exemplo, tocou no Chivas Jazz Festival.
Recentemente, gravou o CD “Elixir”, na França, e o “Na Tocaia”, no Brasil, cuja previsão de lançamento é setembro.
• Serviço
Altamiro Carrilho e Raul de Souza, hoje, no ginásio do Sesc, às 21h. Os ingressos custam R$ 10,00 e R$ 5,00 (matriculados, estudantes e maiores de 60 anos). O endereço é avenida Aureliano Cardia, 6-71. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3235-1750.
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Histórias
Nascido João de Souza, Raul, como é conhecido, adotou o nome sugerido por Ary Barroso. Começou a tocar ainda menino, com a banda da fábrica onde trabalhava, apresentando-se em lojas de tecelagem e jogos de futebol. Começou com o tamborim, passou pelo trompete, tuba, sax tenor e flauta antes de chegar ao trombone.
Após quatro anos de carreira militar, onde tocava na banda, excursionou com Sérgio Mendes pelos Estados Unidos e Europa.
De volta ao Rio de Janeiro, conseguiu emprego na Rádio Mayrink Veiga, onde conheceu nomes como Hermeto Pascoal e Radamés Gnattali, entre outros. Tocou também em programas de TV acompanhando Roberto Carlos e integrou o grupo Turma da Gafieira, ao lado de Altamiro Carrilho.
No final da década de 60, mudou-se para o México e recebeu convite de trabalho para tocar com Airto Moreira e Flora Purim. A partir de então, viveu 20 anos nos Estados Unidos.
Atualmente mora na França, onde participa de diversos projetos em que trabalha jazz, música brasileira e até funk com batidas eletrônicas.
É inventor do Souzabone, um trombone elétrico afinado em dó, com implemento de uma quarta válvula cromática e, hoje, é considerado um dos maiores trombonistas do mundo.
Altamiro Carrilho, seu companheiro de palco na década de 50, na Turma da Gafieira, nasceu na cidade de Santônio de Pádua (RJ), em 1924. Por influência de sua mãe, aos cinco anos de idade brincava com uma flauta de bambu feita por ele. Aos onze, integrava uma banda tocando tarol.
Na década de 40, morando em Niterói, trabalhava como farmacêutico e à noite estudava flauta com um amigo. Com um instrumento de segunda mão, inscreveu-se no programa de calouros de Ary Barroso, conquistando o primeiro lugar.
A partir de então, recebeu convites para integrar conjuntos famosos na época. Estreou em disco em 1943, participando da gravação de um 78 rpm de Moreira da Silva, na Odeon. Em 1949, gravou seu primeiro disco, “Flauteando na Chacrinha”.
Tornou-se reconhecido internacionalmente na década de 60, quando apresentou-se em países como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Egito, México, Estados Unidos e União Soviética.
Em 1988, recebeu do então presidente Fernando Henrique Cardoso a Ordem do Mérito Cultural, em reconhecimento ao seu talento e luta em prol da música brasileira.
Carrilho compôs cerca de 200 músicas. Com 60 anos de carreira, tem mais de 100 gravações em discos, fitas e CDs. Atualmente, apresenta-se com seu conjunto de choro em diversas cidades brasileiras. Também exercita seu lado erudito apresentando-se com orquestras sinfônicas.