Cultura

Artigo: Adivinhação


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Oráculos, sacerdotes e sacerdotisas, pajés, adivinhos, astrólogos. Quantas vezes as pessoas partem em busca de informações para saber de seu futuro? Isso vem a propósito de um amigo ter me encaminhado algumas preciosidades literárias, entre elas o “Lunario e prognostico perpetuo”, edição de 1901, com 575 páginas, impresso na Livraria Chardron, nas terras luzitanas do Porto. Doei esse livro ao Núcleo de Pesquisa e Documentação Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC), pelo seu valor histórico.

Sua primeira edição foi feita século XVII, escrita por Jerônimo Cortez Valenciano, para todos os reinos e províncias, versando sobre o tempo, a agricultura, plantas medicinais, socorros a serem oferecidos aos envenenados, tratamento de moléstias, a forma de descobrir águas e tantas outras coisas. A edição de 1901 foi acrescida de informações compiladas por Antonio Coutinho.

Antes de doá-lo, matei a curiosidade no capítulo “declaração dos doze signos, suas qualidades e effeitos”, detendo-me no meu: Sagitário. Descreve o “Lunario”: “este signo é figurado por um centauro que está atirando settas, o que representa os effeitos que causa o Sol ao tempo que anda juntamente com este signo, que é lançar-nos chuvas, geadas, trovões e raios. É de natureza do fogo, quente e sêcco: é masculino, diurno e commum no outono e inverno. Entra o sol n’este signo commumente a 23 de novembro e desde que entra até que sae diminue o dia em uma hora. Este signo promette-lhe, conforme sua natureza, cincoenta e sete annos de vida.”

A curiosidade com a existência temporal e a possibilidade de antever os fatos que nela ocorrerão fez com que eu recordasse uma façanha semelhante de meu pai que, quando moço, leu num jornal anúncio de uma mulher do Rio de Janeiro que fazia o mapa astral das pessoas. Interessou-se pelo assunto, inteirou-se das informações pessoais que deveria remeter ao endereço indicado e um valor, em dinheiro, do custo do mapa que lhe seria remetido via postal.

Arriscou e fez o pedido. Não era um “conto do vigário”, pois o mapa foi enviado. De posse do mesmo, debulhou atentamente as informações nele contidas, com futuros dados de sua vida projetados no tempo e no espaço. Muitas informações eram genéricas ou dúbias, mas as mais explícitas aconteceram.

Essa sucessão de acontecimentos, coincidentes com a descrição no mapa, impressionaram-no. Mas um fato insólito marcou-lhe os anos seguintes de sua vida: o mapa astral terminava em 1988. Isso o preocupou. Seria o ano de seu falecimento?

Mas esse ano passou e ele continuou vivendo. Deduziu então que uma última folha do mapa havia se extraviado, quando de sua remessa, ou não fora colocada no envelope que lhe enviaram. Ele faleceu no último dia do ano, dez anos depois.

E, no “Lunário”, eu estou com um superávit de 7 anos sobre o previsto para a minha morte.

Irineu Azevedo Bastos, historiador, escritor e colaborador de Ju Machado - Escritório de Arte

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