Na história da Igreja Católica raramente um papa foi sepultado depois de reverenciado por milhões de peregrinos, entre eles os principais chefes de Estado do Planeta. Muitos pediam a canonização-já (santo súbito) de João Paulo II, o que equivale à dispensa do demorado processo de beatificação mediante testemunhos de graças alcançadas com a sua intercessão. Sem qualquer dúvida, um bom homem, o que é uma bênção para a Cristandade. Foi um conservador. Trabalhou com Paulo VI na encíclica Humanae Vitae, publicada em 1968, na qual se condena todo uso de anticoncepcionais – “antes, no momento ou depois do ato sexual” – como pecaminoso, mas com um aceno e uma piscadela para o chamado método periódico de contracepção – ou Roleta do Vaticano, a “famosa tabelinha” de dias férteis e inférteis. João Paulo II amenizou um pouco a Humanae Vitae com o documento “Amor e Responsabilidade”, publicado em 1981. “Todo ato de sexo deve servir à transmissão da vida” – escreveu. Próprio da ingenuidade dos santos.
Mas nem sempre foi assim na história da Igreja. Muitos papas, ao longo dos séculos, praticaram todo tipo de traquinagem. Por trás do manto do celibato exigido a partir de 1139, instalaram suas amantes no Vaticano. Santo Agostinho, em Solilóquios, prevenia que “Nada é tão poderoso para enfraquecer o espírito de um homem quanto os carinhos de uma mulher”. E ainda promoveram seus filhos ilegítimos – ou “sobrinhos” (nepotes), como ficaram conhecidos – a altos postos cardinalícios. Protestantes radicais dos séculos XVI e XVII dedicaram-se com afinco a retirar esqueletos dos armários. Um panfletário da época fez alegremente a lista dos papas envenenadores, assassinos, fornicadores, libertinos, bêbados, devassos, jogadores, necromantes, adoradores do diabo e ateus (A vida sexual dos papas, Nigel Hawtorne, Ed. Prestígio).
Histórias sobre um papa mulher passaram a circular na metade do século XIII. Seria o papa Joana, mas Bocaccio chamava-a de Giliberta. Intrigas hereges. Acontecia mulheres entrarem em mosteiro como homem. Daí a fábula. No Museu do Louvre e no Museu Pio Clementino, de Roma, há cadeiras furadas em exposição, usadas na eleição do papa. Para provar seu valor, seus testículos eram tocados pelo clérigo mais jovem como prova de seu sexo masculino. Na verdade para certificar-se se não era castrado. A um eunuco não é permitido ocupar o trono papal. Anunciado “Ele tem testículos”, os presentes replicavam: “Deus seja louvado”.
Tivemos papa, antipapa e tripapa. Em 1410 chefiavam a Igreja ao mesmo tempo, João XXIII, em Bolonha; Benedito XIII, em Avignon; e Gregório XII, em Roma. No século XX houve outro papa João XXIII (1958-63). Isso não aconteceu por erro. É comum na Igreja Católica esconder os malfeitos de um papa dando a outro o mesmo nome. Houve dois Beneditos XIV, dois Clementes VII e dois Clementes VIII. A divisão era tal em 1241 que a escolha do sucessor de Gregório IX tornou-se impossível. O governador de Roma concebeu a idéia de um sistema de “conclave” (com chave): para apressar as deliberações dos cardeais. Para uma intimidação preliminar mandou dar uma surra nos purpurados. Em seguida foram jogados no salão principal do Septizodium, um enorme edifício na via Appia. As janelas e as portas foram lacradas. Ali eles deveriam permanecer até terem escolhido um papa. As refeições eram simples e água só para beber. Os cardeais não podiam trocar de roupa e as latrinas não deveriam ser esvaziadas. No teto haviam guardas armados proibidos de sair dos seus postos. Eles usavam calhas como privadas. Durante uma tempestade, a repentina chuvarada derrubou toda a urina e os detritos sobre a assembléia de cardeais. Mesmo assim a eleição durou 55 dias. Celestino IV só foi eleito depois que o governador ameaçou desenterrar Gregório IX e colocar seu corpo em decomposição com eles no salão para ajudá-los a tomar uma decisão mais rapidamente. O conclave foi tão desgastante que Clementino IV morreu duas semanas depois, antes mesmo de ser consagrado. Temendo nova sessão de maus-tratos os cardeais deram no pé.
Que o sucessor de João Paulo II seja tão bom e santo quanto esse grande polonês, glória de Deus na terra. Amém. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)