Em menos de quatro horas, Bauru registrou anteontem duas tentativas de linchamento em bairros extremos da cidade. A demonstração de intolerância foi exibida nas passarelas do Sambródromo e nas imediações do Jardim Ivone e Vila São Paulo.
No primeiro caso, Gilmar Vieira da Silva, 21 anos, teria sido apreendido e agredido por populares após furtar uma televisão e uma bicicleta de um imóvel situado no Jardim Ivone. Algumas horas depois, foi a vez de Thieser Juliano Manso Collis apanhar de cerca de 30 pessoas. Ele tornou-se alvo da ira dos presentes por ter atropelado uma criança de 3 anos, quando transitava de carro por uma marginal do Sambódromo. Foi vítima de violência ao parar o veículo para prestar socorro ao menino que, até ontem à noite, continuava internado.
“Isso (as tentativas de linchamento) tem relação com a conjuntura. Envolve aspectos econômicos, como desemprego, baixos salários e miséria”, analisa o psicólogo social e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Celso Zonta. Na opinião dele, a situação envolve também a questão da moral social do País, em que autoridades como policiais e juízes figuram entre os acusados por crimes.
“Isso esgarça a moral social e aumenta o grau de insatisfação das pessoas. Eu vejo violência e reproduzo violência. Fenômenos como esse mostram que estamos com um grau de tensão razoável (que atinge todas as classes sociais). Esse conjunto forma um caldeirão que leva ‘à justiça pelas próprias mãos’”, explica.
Injustiça
No entanto, essa busca pelo “o que é certo” está sujeita à violação de direitos. De acordo com comandante interino do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI), major Pedro Baptista Lamoso, uma pessoa inocente já foi alvo de tentativa de linchamento. “Acho que isso é reflexo da falta de solidariedade. Se tiver uma pessoa caída no chão passando mal, será que o mesmo número de pessoas irá ajudá-la?”, questiona. Para o major, tirando o discurso de fraternidade, sobra egoísmo e intolerância.
Também tem postura contrária ao linchamento o delegado do 2.º Distrito Policial (DP) Doniseti José Pinezi, que registrou a ocorrência de furto no Jardim Ivone. No entanto, ele considera correto o esforço da população em ajudar a polícia a capturar quem comete delitos. “O artigo 301 do Código de Processo Penal diz que qualquer pessoa pode prender em flagrante”, informa o delegado.
Mas a iniciativa nem sempre é recomendável. O delegado do 4º Distrito Policial (DP), Dinair José da Silva, lembra que se alguém estiver armado na ocorrência, pode resultar numa tragédia ainda pior. Ele acompanha o caso notificado no Sambódromo.
“A população está mais nervosa. Vários fatores contribuíram (para a ocorrência). Quando envolve criança, a tendência é de proteção em qualquer situação. Depois, dependendo da aparência da lesão, a população quer fazer ‘justiça com as próprias mãos’. Mas é perigoso”, reitera.
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Vítima de agressão conquistou inimizades
Acusado de furtar inclusive idosas, Gilmar Vieira da Silva, 21 anos, ganhou a inimizade de parte da população do Jardim Ivone e da Vila São Paulo. Ele foi cercado por populares após ser flagrado pelo dono do imóvel de onde teria furtado uma televisão e uma bicicleta.
“Ele é rápido. Foi correndo para um barracão (entre os dois bairros). Ajuntaram um monte para pegá-lo. Meu irmão não deixou bater, senão iriam matá-lo”, conta a irmã de Daniel Rodrigues, morador da casa furtada, situada na quadra 2 da rua Jorge Pacheco de Oliveira, no Jardim Ivone.
De acordo com ela, que pediu para ter o nome preservado, o acusado é conhecido na região por furtar panelas e vender produtos roubados. “Ele já colocou muita gente em confusão. Não perdoa nem senhora de idade”, confirma o jardineiro Cirsso Anário da Silva. No entanto, ele confirma que parte do bairro acobertaria o acusado. No local, o JC constatou que alguns moradores demonstraram contrariedade à agressão, confirmada na surdina por alguns eles.
Independentemente das versões contraditórias, Silva foi autuado em flagrante por furto e foi detido na Cadeia Pública de Avaí sem ferimentos graves. “Parece que ele furta por causa do consumo de entorpecente, mas não tem confirmação. Vamos instaurar outros inquéritos para investigar outras ocorrências”, explica o delegado do 2.º Distrito Policial, Doniseti José Pinezi.