Tribuna do Leitor

História da vida de um idoso


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Conheci, por acaso, em 1968, a história da vida de um idoso sob o signo de Áries. Éramos desconhecidos um do outro. Fizemos uma amizade sincera. Esse idoso completou 72 anos de vida dia 13 deste mês. Nos tornamos amigos. Foi amor à primeira vista. A nossa relação foi crescendo mesmo à distância. Passaram-se oito anos. Em 4/2/1976, comecei a fazer parte da intimidade da vida deste idoso em seu quadro de funcionários. Já se foram 29 anos de convivência. Ele faz parte da minha vida. Eu assisti vários filmes da vida deste idoso em preto e branco, da nossa relação amigável, acompanho parte da sua história, que começou exatamente em 1928. Lendo os livros e a história do seu passado, revendo as fotos antigas e amareladas pelo tempo, ouvindo depoimentos e relatos das pessoas que vivem e convivem ao lado dele.

Eu fui conquistado pela sua história e apreendi muito através dos relatos dos pacientes que acompanharam suas mudanças. O idoso de quem estou falando foi inaugurado em 13 de abril de 1933 e carregou sobre seus ombros todo tipo de preconceito social e humano, por uma sociedade mal-informada.

Em 1933, nasceu o Asilo Colônia Aimorés. Começava aí, uma bela história de vida. O idoso foi resistindo, tornando-se cada vez mais conhecido. Primeira mudança: a Lei 500, de 10 de dezembro de 1949, o transforma em Asilo Colônia Aimorés. Sua bela praça Ademar de Barros, composta pelo Cine Teatro Cassino, o coreto, a igreja Nossa Senhora das Dores... Na sua torre, um detalhe: o relógio parado há mais de 30 anos, às 17h36, não importa. Mesmo parado, consegue marcar as horas duas vezes ao dia. Segunda mudança: Sanatório Aimorés, onde privava o ser humano da sua liberdade pessoal e separava pais e filhos do convívio familiar.

O tempo foi passando e o idoso continuou sua história resistindo a tudo e a todos. Uma nova mudança estava para acontecer. Um nome para identificar com a cidade sem limites, um lugar para acolher aqueles que habitavam nas tendas e nos casebres por eles construídos à beira das antigas estradas de ferro Noroeste e Sorocabana. O nome sugerido na época, em 1936, foi Hospital Aimorés de Bauru. Histórias de tristezas e incertezas eram carregadas na bagagem para completar o currículo deste idoso. Em 1974, mais uma mudança estava sendo preparada. Os registros guardam em seus arquivos e a história registra o Hospital “Lauro de Souza Lima”.

Muitos pensam que o passado não é importante para que aconteça, nos dias de hoje, o avanço da ciência para as novas pesquisas, para um futuro melhor, principalmente, para nossos filhos. Sem conhecer e respeitar tudo que foi realizado no passado, na história da vida deste idoso, não chegaremos a entender e viver o seu presente, caminhando em direção ao seu futuro. Fazer parte da sua verdadeira história é que me faz voltar ao passado e recapitular nas páginas dos livros, parte da caminhada através da sua própria história.

Uma mudança total. O nome de um grande dermatologista foi nomeado para registrar e dar uma identidade definitiva ao idoso que se tornou referência da Organização Mundial da Saúde (OMS), na área de pesquisas para o tratamento da hanseníase, abrindo as algemas do passado, deixando a liberdade voar livre e caminhar em passos largos e longos mostrando novos horizontes, conquistados com o nascer do sol de um novo dia, num momento da história que ainda continua e permanece viva.

Eu me orgulho de fazer parte desta história. Como velhos amigos, meu carinho e respeito são recíprocos. Sem preconceitos do passado, eu vivo o presente com os olhos no futuro. Presenciei pessoalmente a mais importante mudança na vida deste idoso. No dia 2/10/1989, o governador da época, assinou um decreto lei e transformou o hospital no Instituto “Lauro de Souza Lima”.

Hoje, definitivamente, a bela paisagem, o verde da natureza, contrasta com a arquitetura antiga e registra nas construções do passado a sua história: os letreiros forjados em ferro batido, a quadra de esportes, o campo de futebol, a tribuna de honra, tudo faz parte do passado, mas a história da vida do idoso permanece viva - 72 anos de vida registrados. No seu arquivo, mais de 67.039 nomes e identidades de pacientes que fizeram parte da história de glórias e conquistas em benefício das pesquisas realizadas em prol da ciência para toda a sociedade.

Parabéns, Instituto “Lauro de Souza Lima”. Em 13 de abril de 2005 você completou 72 anos de história que, às vezes, a própria história desconhece. Você é motivo de orgulho para Bauru, a cidade sem limites, e esperança para o mundo na área da pesquisa. Parabéns a todos, aos pacientes e diretores que marcaram e fizeram também parte da história. Aos funcionários e a todos desta conceituada instituição, da qual eu muito me orgulho em fazer parte.

Jaime Prado - RG 9.656.152

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