Não temos papa. João Paulo II morreu. A Igreja está sem o seu pastor. Quanta comoção na sua morte! Eu também me emocionei e como ser humano, cristão, católico e participante desta Igreja santa e pecadora, gostaria de abrir o meu coração, enviando-lhe esta carta, mas enviá-la para onde. O endereço me foi dado por uma inocente, espontânea e profética criança que nos altos e fortes ombros de seu pai, ao ser perguntada, na Praça de São Pedro, por um repórter da TV italiana, onde estava o papa, respondeu que ele estava no céu. Criança não mente, logo esta minha carta não se extraviará e o papa irá lê-la, porque, agora com tempo, descansa merecidamente na graça de Deus.
Caríssimo papa, João Paulo II: Em primeiro lugar, agradeço a Deus por no-lo ter dado como presente nestes longos anos de pontificado. Um pai de verdade que não tem poupado, em nenhuma situação, a dar o seu verdadeiro testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja. E uma das qualidades que o senhor tem procurado em sua vida pessoal e de pastor, foi a coragem de gritar a verdade que é Cristo, com todas as forças e com todos os meios, num mundo dilacerado pela mentira. Mas a verdade tem deixado o senhor muitas vezes sozinho, solitário, dentro e fora da Madre Igreja. Os profetas nem sempre são compreendidos em tudo aquilo que dizem. O único compromisso dos profetas é com a verdade. Sua voz tem defendido os pobres. Foi contra aqueles que quiseram pisar nos corpos e nas consciências dos mais fracos. O senhor tem dito com voz alta que a vida deve ser defendida desde o seu primeiro momento, porque é dom de Deus; que ninguém tem direito de impedir o nascer da vida nem estipular o seu término.
O senhor nunca se omitiu sobre vários temas polêmicos. Que exemplo de humildade, quando, como pai da Igreja, pediu perdão a todos os que, ao longo, dos séculos, podiam ter sido ofendidos pelas atitudes de papas, bispos e sacerdotes. Pudemos notar a sua humildade sofrida, mas forte e profética ao pedir perdão a todas as famílias cujos filhos foram prejudicados por atitudes de pedofilia por seus sacerdotes. Lembramos também o seu alerta ao necessário resgate dos valores da família e de castidade, para que a vida seja uma transparência do verdadeiro e autêntico amor de Jesus. O Evangelho não pode ser diluído pelas tendências do mundo, mas que o caminho do seguimento de Jesus será sempre um caminho “estreito” para quem se decide a segui-lo. Caríssimo papa, o senhor nem pode imaginar como me marcou o sacrifício da sua doença e da idade avançada. Guardo ainda comigo aquela imagem da janela do Vaticano em que as palavras não falavam mais, somente os gestos e sinais. Quantas coisas se escreveram ao seu respeito e ao respeito de sua Igreja, boas e más, verdadeiras e falsas, sinceras e irônicas e até ofensivas, mas a história falará da Igreja antes e depois do seu pontificado que teve o senhor como piloto que fez avançar a barca de Pedro para águas mais profundas.
Caríssimo papa, na próxima semana, os seus cardeais estarão reunidos para a escolha do seu sucessor a quem peço a sua intercessão para que um vento mais forte que o do seu sepultamento, sopre no conclave, se possível, uma ventania do Espírito Santo presenteando-nos com um novo papa senão melhor pelo menos igual ao senhor para enfrentar uma Igreja diversa e com muitos problemas. E assim, nós na terra e o senhor no céu, daremos glória a Deus, quando os dobres dos sinos e a fumaça branca do Vaticano anunciarem festivamente o “habemus papam”. Amém! PS:. Não sei se o senhor ficou sabendo que, no seu sepultamento, uma multidão o aplaudiu e gritou santo, santo e até uma faixa apareceu com estes dizeres italianos: “Santo Subito”. Vibrei também muito com a multidão. Os elogios não são feitos para que as pessoas fiquem orgulhosas e, com a idade e santidade que o senhor tem, não há perigo que fique orgulhoso, pois a humildade é, como o senhor sempre fez, caminhar na verdade que é Cristo. Descanse em paz. A sua bênção.
O autor, Gino Crês, é professor